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Cristina Castilho: Acordar sem ter dormido

MARIA CRISTINA CASTILHO | 24/01/2019 | 07:30

Depois de demonstrar os medos em relação aos riscos que o filho sofre por seus descaminhos na dependência química, envoltos em atritos e violência, passou para a esperança de que, neste ou naquele dia, como ela, vença a vontade da pedra. Foi me dizendo: “Você imagina o que é colocar uma corda no pescoço e conseguir, em um segundo, desatar o laço que tirava o ar? Aproximar da boca o chumbinho de rato e, num instante de lucidez, jogá-lo no esgoto? Estender o corpo na terra com a cabeça no trilho do trem? A angústia de acordar sem ter dormido?”
Tudo isso pelo desespero do domínio das drogas sobre seu corpo, suas emoções, sua alma… De um lado, a mulher-mãe, cujo coração batia pelos filhos – jamais tive dúvida disso -, e, de outro, a criatura fragilizada por mais um engano e abandono, a quem foi oferecida a pedra com pó de ilusão, que acalma por instantes aquilo que sangra por dentro.
Uma das pessoas que conheci em situação de vulnerabilidade social, hoje na Eternidade, me relatou, certa vez, após experimentar vários tipos de droga, que o crack é tirano e acelera o passo em busca do cachimbo posterior. Com a pedra, a sensação de poder, a excitação, a hiperatividade, a euforia e o prazer chegam rápido ao cérebro – em 10 a 15 segundos, segundo os estudiosos -, no entanto os efeitos duram em média cinco minutos, o que leva o usuário a se utilizar dessa substância muitas vezes em curtos períodos de tempo e, sem ela, entrar em depressão, chegando a ficar paranoico.
A moça viveu sob o domínio da fumaça assassina durante dez anos, com passagens por esquinas cinzentas e empoeiradas, nas quais estendia as mãos, segundo me disse, de imediato para solicitar ajuda mas, em seguida, a vontade do crack predominava e pedia um valor em dinheiro que, ao juntar, se transformava na pedra. Com fé em Deus, há cinco se encontra com poder sobre si mesma. Largar foi uma atitude sofrida, porém firme, com o propósito de mostrar aos filhos que eram mais importantes que o crack e de salvação.
Penso sobre acordar sem ter dormido. Forte esse pensamento. Sacudiu-me. E isso não diz respeito apenas a usuários de drogas. Há tantas coisas que experimentamos em nossa vida de maneira sedada, sem encararmos a realidade e as verdades que nos envolvem.
Tenho refletido sobre episódios dos quais preciso acordar sem ter dormido.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE ARTICULISTA

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE
ARTICULISTA


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