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Cristina Castilho: “Fogo de Monturo”

MARIA CRISTINA CASTILHO | 08/06/2018 | 03:00

A senhorinha é de ascendência indígena. Nasceu na região Nordeste. Carrega uma mistura da aldeia da avó e da civilização da mãe. O grupo indígena Xucuru vive da agricultura de subsistência, horticultura, fruticultura e do artesanato de bordados da renascença feitos pelas mulheres. Por ocasião das festas de Nossa Senhora das Montanhas e de São José, revivem costumes próprios da sua cultura, através de danças e cantigas em dialeto misturado com português. Nos rituais, os homens se vestem com trajes de palha de milho..

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE ARTICULISTA

A invasão holandesa, de 1630 a 1654, ocorreu naquela região. Sabe-se que, durante vários meses, o capitão holandês Johannes Blaer van Rijnbach esteve lá com o objetivo de destruir o Quilombo de Palmares. Outros holandeses vieram para a localidade, a partir de rumores de que Rijnbach teria enterrado um tesouro naquela região. Soma-se tradição europeia também.

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A senhorinha saiu aos dezoito anos de lá, movida pelo amor, e veio dar em São Paulo. Naquela época, não entendia que muitas histórias que parecem de amor são fantasia apenas. Difícil se sentir descartada e segurar sozinha a rédea da vida, ainda mais em terra estranha. Mas persistiu – e na enxada. Perdeu o contato com os familiares.

Sua terra, hoje, é apenas um nome nos documentos. Sua aparência tem muito de indígena, como a mãe. Nas reminiscências, descreve o pai alto, de pele e olhos claros, e austero. Provavelmente de descendência holandesa. Somaram-se nela outras realidades, mas não perdeu o ser em sua essência. Além disso, possui a qualidade de jamais dizer por trás o que pensa. Fala frente a frente, com os olhos nos olhos.

Gosto muito de ouvir os ditados e os termos que usa. Se conseguisse, faria um dicionário com sua sabedoria e vocábulos estranhos, mas que retratam na íntegra aquilo que deseja expressar. Semana passada, comentando sobre como deseja distância de pessoas falsas, disse-me que são como “fogo de monturo”.

Explicou-me que monturo é o resto de cascas de frutas, verduras, legumes juntadas para, quando estiverem secas, serem queimadas. Transformadas em cinzas, tornam-se adubo nos canteiros. Mas é preciso cuidado, pois quando você pega a cinza logo depois é só aparência: há fogo ainda e queima a mão. Deseja distância de “indivíduos cinzas de monturo”. Segundo a senhorinha, para elas somente água benta funciona.

MARIA CRISTINA CASTILHO É PROFESSORA E CRONISTA


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