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Cristina Castilho: Menina mulher

MARIA CRISTINA CASTILHO | 01/11/2018 | 07:30

Não é de hoje que me comovo com menina mulher e mulher menina. Mulher menina não teve infância e isso é tão triste! Faltou boneca, lápis de cor, aquarela, corda para pular, bambolê para girar… Com inúmeras pessoinhas isso acontece porque trabalha desde pequena: na terra, na venda de reciclagem, no cuidado com os irmãos menores… E a causa maior está na miséria, miséria de inúmeros tipos: financeira, moral, na educação, na arte, nos sonhos…

Há situações de crueldade, de abandono, de mães que vêm de tragédias familiares e que não sabem como cuidar dos filhos, preocupadas apenas com que não mingue o arroz e feijão. Ah, e quando essas meninas são sujeitas aos abusos sexuais e ao mercado de seu corpo de carnes tenras, misturadas ao cheiro de feras com aparência humana?!

Fica algo mal resolvido para a vida inteira. A mulher menina quer boneca para brincar e se irrita com a filha pequena ao competir com ela. A mulher menina, às vezes na terceira idade, com inúmeras desculpas, tenta obter alguns objetos ou contos que lhe foram negados nos primeiros anos. Procuro compreender, nessas atitudes, os espaços vagos e dolorosos que carregam. É diferente de não se perder a criança encantada que mora em nós. Mas é difícil, também, ter nas proximidades menina mulher que se tornará mulher menina e não se poder fazer nada.

Existem assombrações que moram em histórias dramáticas como a da menina que convive com a mãe dolorida, que foge de seus fantasmas, do passado e atuais na droga. A menina que vê como solução, para anestesiar seus questionamentos tantos e sua vontade de colo, o abraço que lhe pede sexo somente. A menina que a mãe, ébria, leva para o bar, a fim de atrair machos à mesa, que lhe paguem a bebida. E, pode ainda, de algum atalho, alguém a observar, com estratégias ilusórias, a fim de conduzi-la ao comércio do sexo.

Menina mulher de lábios grossos pintados de vermelho berrante, olhos emoldurados de preto, meia de rede, shorts bem curto, empinando o quadril ao passar na calçada. Pela escola não se interessa. Em lugar de ilusão, pesadelos, por isso os remédios.
Solicita-me que lhe imprima um desenho para pintar. Questiono se não preferia uma folha em branco para o seu próprio traçado. Diz-me que é fraca de ideias. Desenho de que, então? Pede-me o das Meninas Superpoderosas: Florzinha, Lindinha e Docinho.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADEARTICULISTA


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