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Cristina Castilho: Ouvindo a vida

MARIA CRISTINA CASTILHO | 15/11/2018 | 07:30

Ouvir a vida foi conselho do Papa Francisco no encerramento do Sínodo dos Bispos dedicado aos jovens. A moça não sabe ler e escrever. Em seu tempo de infância, nas entranhas da Amazônia, era impossível escola. Aconteceu também com a mãe, com a avó, com a irmã… Saiu de lá, com a família, nos primeiros anos da adolescência para tentar vida melhor no Sudeste. Antes disso, contudo, veio a enchente, com ventos fortes, que levou onde morava. Juntaram-se três famílias, da mesma origem, na palafita que se manteve. Foi lá que, numa noite e nas outras próximas, o cunhado deitou sobre ela e rompeu seu corpo assustado. Não teve coragem de gritar.

No dia seguinte, contou à mãe e à irmã. A mãe disse que o silêncio seria melhor, pois o pai, por certo, sangraria o indivíduo da mesma forma que trabalhava na seringueira. Pai preso e sua gente mais na miséria. A irmã comentou sobre a impossibilidade de sobrevivência dos quatro filhos sem o cidadão. Para impedir catástrofes diversas, manteve a mudez nos horrores que se sucederam. Hoje, moram vizinhos e ela, envelhecida pelas dores, o cumprimenta à distância.

A segunda moça possui sobrinho preso de idas e vindas da cadeia. Do vínculo familiar, restou apenas ela. A avó materna partiu e a mãe em seguida. Desconheço notícias sobre o pai. Encontra-se em presídio distante. Quando ele vem, na “saidinha”, a tia ressuscita os medos de que pare pelo meio do caminho, que resolva cometer delitos no período e, ainda, que não retorne.

Faz de tudo para que, embora o sistema carcerário esteja falido, se reintegre à sociedade e se torne homem de bem. Por seus receios, com fundamento devido a comportamentos anteriores dele, defende que o condenado cumpra a pena toda no regime fechado. A terceira moça veio do Nordeste há tempo. Empurrada para a prostituição ainda menina, fugiu do bordel com 21 anos e chegou numa boate nas proximidades. De lá para cá. No retorno ao cabaré, conheceu o cidadão que lhe deu, além do único filho homem, vestido de noiva e casamento no papel e na Igreja.

Ao saber que o irmão e a cunhada não protegiam a filha, da mesma idade de quando foi empurrada para o comércio do sexo, foi com o marido buscar a menina. Ouvindo vidas que, apesar dos problemas, me dizem de renúncia e proteção para salvar existências, peço a Deus que me perdoe pelas omissões.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADEARTICULISTA


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