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Cristina Castilho: Ouvindo o coração

MARIA CRISTINA CASTILHO | 04/10/2018 | 07:00

Alegra-me ouvir, dentre as rudezas da vida, o lado terno do coração das pessoas. Como diz a canção “Tocando em frente”, de Almir Sater e Renato Teixeira: “Todo mundo ama um dia/ Todo mundo chora/ Um dia a gente chega/ E no outro vai embora./Cada um de nós compõe a sua história/ Cada ser em si/ Carrega o dom de ser capaz/ E ser feliz”. Ela nasceu, há quase 50 anos, nas proximidades de Jundiaí. A mãe e o pai a carregaram com as mãos ásperas pela enxada, que lhes proporcionava o sustento do dia a dia.

Menina ainda, se fez também do trabalho no solo, sem deixar de lado a boneca de pano. Estudou quatro anos em escola rural e, em paralelo, foi alinhavando com resistência o seu mundo. O pai de seus filhos não os assumiu como deveria. Indicaram-lhe a Justiça, porém optou por se virar do seu jeito. Um pouco depois que a conheci, me emocionei com uma atitude sua: trabalhava em um depósito de sucata, na separação dos materiais.

Era o aniversário da filha. Não tinha condições de presenteá-la nos seus quinze anos. Encontrou, no meio do material, um vidro com dois dedos de perfume. Deixou bem limpo, embrulhou e levou à mocinha que, no dia seguinte, abraçou-me perfumada de paraíso e sorriso e me disse que era oferta materna.

Na atualidade, participa de um projeto socioeducacional onde, no meio de um pequeno jardim, se encontra uma casinha de brinquedos. Pediu aos responsáveis para deixá-la colocar uma cerca pintada de branco e plantar, no entorno, flósculos coloridos, assim como na moradia da Branca de Neve com os Sete Anões.

Que encanto! Em meio às pedras pontiagudas, que ferem os rastros, não se perdeu do conto de fada. Persiste, em um canto de sua alma, uma floresta como a de Spessart, na Alemanha, com seu mar de folhas. Há carvalhos seculares e um prado de diversas árvores frutíferas. Há folhagens verdes, com matizes vermelho-alaranjado no inverno e outono.

Há gerânios brancos com tons rosa pálido de maio a julho. Há o majestoso rio Main, mesmo que ela não tenha jamais saído das fronteiras de sua terra. A história dela, no entanto, não chega à maçã envenenada e nem ao príncipe. Encerra “na casinha dos anões”, com Mestre, Feliz, Zangado, Dengoso, numa existência pacífica, no “dom de ser capaz”. É a mãe que, com seu trabalho, cuida de filhos e netos sem abrir mão dos sonhos possíveis em seus caminhos.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADEARTICULISTA


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