Opinião

Cristina Castilho: Pelas vias do Centro


Percorro as vias do Centro em via-sacra. Sigo em prece, com o Pastor do rebanho de que faço parte, Dom Vicente Costa. Com seu olhar, atitudes e palavras, ele carrega as ovelhas, serenas ou rebeldes, em seus braços. Segue, também, o pároco da Catedral, padres Milton Rogério Vicente e Jair. Há movimentos, congregações, leigos e simpatizantes. Carrego, com cuidado, para não perder, o que o padre Milton diz sobre o caminho sagrado: “Cada pequeno passo da via-sacra é, na verdade, um passo Dele em minha direção”. Verdade, pois na cruz se encontram os pecados individuais e o Senhor vai a ela em gesto supremo de amor para perdoar e salvar. Como teria me perdido da salvação se o Senhor não me fosse anunciado desde o ventre macio de minha mãe. Tenho pegadas diferentes por esses espaços. Passei por eles de mãos dadas com meu pai. Saudade dele! Trinta e um anos de distância, sem se tornar ausência. Que formidável a presença de minha mãe nos seus 94 anos! Passei, também, por eles sozinha, sem risco algum de violência, em direção à igreja, ao cinema, ao Gabinete de Leitura Ruy Barbosa e às praças em busca das mulheres que me comoveram pelo corpo atingido por misérias dos que se consideram acima. Disseram-me que seriam elas mariposas, a gravitar nos postes de luzes anêmicas. Constatei que eram crisálidas, impedidas de alargar as asas e experimentar o voo no azul pelos devoradores de carnes. Outras lonjuras, que permanecem assiduidade, prosseguem comigo. Reconheço, em alguns locais, os meus olhares antigos, mas há muitos deles que o “progresso” alterou e destruiu. Que pena! A história, através das construções, é mais do que imagens nos terrenos, é uma questão de alma. Silêncio, silhuetas, solidão e preces se confundem nessa via-sacra. Há gritos de dor que se mantêm em alguns. Há um lamento preso sob os escombros provocados por carrascos. O salmista Marquinhos, que acorda sons divinos, canta: “Tanto que esperou pudesse um dia/ Chegar bem perto, dizendo tudo. (...) Ela ultrapassou toda medida,/ Não lhe bastando meros preceitos. / Lágrimas, perfume, que acolhida!/ Nem se importando com preconceitos./ Ela muito amou, tem a minha paz. (...)./ Sabe quem eu sou e será capaz/ De espalhar na terra meu amor”. De cada estação, recolhemos o cravo, que faz sangrar, para colocá-lo na Cruz redentora da esperança. MARIA CRISTINA CASTILHO é professora e cronista

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