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Cristina Castilho: Posturas de descarte

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE | 29/11/2018 | 07:30

Dois fatos, acontecidos há poucos dias, me amarguraram. O primeiro um pouco distante, a respeito do assassinato de uma garota de programa argentina, dentro de uma cela na “Agrupación Especializada”, um quartel da Polícia Nacional do Paraguai, onde ficam presos perigosos. Segundo o noticiário, o autor é o narcotraficante carioca Marcelo Fernando Pinheiro Veiga, conhecido por Marcelo Piloto, em seguida expulso do país e transferido para um presídio brasileiro de segurança máxima.
Piloto, oriundo do Morro do Urubu, em Pilares, na zona norte do Rio, iniciou sua vida no crime como assaltante. Entrou no tráfico após ter ficado preso com José Benemário de Araujo e assumiu o comando da favela de Manguinhos. Como revendedor de drogas e armas, compradas no Paraguai, prenderam-no naquele país em dezembro do ano passado. Segundo informações, a jovem, de 18 anos, chamada pelo celular que Marcelo possuía na cela, o visitava pela segunda vez e entrou de forma irregular no presídio. Golpeou-a por 16 vezes com uma faca. Já havia um processo de extradição dele para o Brasil e, para tentar impedir que isso acontecesse, matou a mocinha.
Que doloroso usar a vida da garota como forma de garantir sua permanência no Paraguai. Meu Deus, será que os gritos de dor e desespero dela não foram ouvidos de imediato, a fim de ser salva?! Será que o sangue que escorreu através da faca não abriu ferida de arrependimento nele?! Será que os que foram coniventes com o celular dentro da cela e com a entrada da jovem no local não têm pesar algum?!
Sociedade cruel de descartes em nome do crime, poder, dinheiro, consumismo…
O outro episódio diz respeito a uma adolescente de 14 anos, em um ônibus urbano de Jundiaí, em direção à escola. Um adulto inescrupuloso esfregou-se nela e tentou encoxá-la. O terror a paralisou. Desceu no próximo ponto e ligou para a mãe. A mãe, que tem experiências tristes de homens-animais, que sugam meninas para seu prazer, indiferentes às cicatrizes que provocam, ficou transtornada.
A ocorrência foi feita na DDM, mas responsabilizar o indivíduo não será fácil. A mãe viu na filha a história dela. E a filha, nos seus pesadelos, carrega ainda o olhar de mosca varejeira e o sorriso sarcástico do homem. Sociedade cruel de descarte da pureza de um corpo de menina para saciar taras.
Iluminai-nos, Senhor!

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADEARTICULISTA


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