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Cristina Castilho: Referências

CRISTINA CASTILHO | 04/04/2019 | 07:30

Conheci-a no bar que era famoso pelo comércio do sexo. Espaço da frente com mesa de sinuca e nas prateleiras bebidas. Luz sombria em ambiente soturno de compra e venda de peles e emoções, em sua maioria desgastadas. Depois dos degraus, os quartos escuros e abafados com sons que iludiam muitos dos clientes. Recordo-me de outra moça, de carne judiada, que escapou de um orfanato, aos dez anos, em outra região, pelos maus tratos. Tropeçou de imediato em um bordel. De lá, se evadiu e chegou àquele local. A espuma de colchão, que colocava dentro do corpo, uma vez por mês, em certo momento, apodreceu, juntamente com o útero, os ovários, as trompas… Mais um vazio. Dizia-me temer que, no hospital, a condenassem por sua forma de sobrevivência e pela fuga de menina. Foram tantos comentários sobre o seu gesto tresloucado, sem prudência alguma sobre a saúde, que escapuliu do hospital antes da alta e jamais soube dela. Fazia muito tempo que não me lembrava da moça que, dentre outras, me despertou um sentimento materno. Estive naquela espelunca por incontáveis vezes, para dizer às mocinhas e às senhoras desesperançadas sobre o colo de Deus, que acolhe sem barreira, acalma os medos, cura chagas…
Mas voltando à mulher, cuja referência era o tal bar. Trocávamos sorrisos e quase não conversávamos.
Décadas após, “mudou de referência”. Veio para os cantos expostos da praça central e se tornou, por algum tempo, novidade para os consumidores. Cabelos azuis, amarelos… Unhas de cor semelhante e a boca borrada de coloral. Percorria um único quarteirão. Agradável sempre comigo e jamais deixava de perguntar sobre a nossa mãe, especialmente quando quebrou o braço. Para elas, com o passar dos anos, também se fez dos chamegos que não tiveram.
Em outubro, se não me engano, avisou-me que viria esporadicamente a Jundiaí. Voltara à sua cidade natal. Lá havia gente sua. Era bom estar próxima aos laços de sangue, em uma época em que se considerava enfraquecida. Encontramo-nos na segunda semana de dezembro. Contou-me que, em todas as vindas, fazia questão de entrar na Catedral e rezar. Os sinos da Igreja fizeram-na perceber que o Azul sobre ela. Alegrei-me.
Avançaram os problemas vasculares acompanhados de outros. Partiu. Entristeci-me, contudo creio que levou, como referência maior daqui, as torres que lhe fizeram olhar o Céu.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista


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