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Cristina Castilho: Rosinha

MARIA CRISTINA CASTILHO | 07/02/2019 | 07:30

Em dezembro, a Pérola Dolce, assistente social da Casa da Fonte (CSJ), recebeu uma doação de brinquedos e, dentre eles, uma porquinha de borracha cor de rosa. Coloquei-a em minha mesa e disse às crianças que era a Rosinha Dolce. Não é a primeira vez que crio um conto a partir de algo no espaço e as crianças e adolescentes prosseguem com ele. Era, igualmente, o nome de uma canoa, no livro “Rosinha, minha canoa” de José Mauro de Vasconcelos (1920-1984), que narra histórias da floresta, em paralelo com a dura realidade da passagem de Zé Orocó pelo sanatório.
A daqui ganhou até chupeta e uma touquinha de dormir. Logo depois, veio o nosso recesso. No primeiro dia de volta, pedi que colocassem a leitoinha no espaço de brinquedos. No dia seguinte, um de nossos meninos, sete anos, voltou com ela, indignado, e me falou:
– Você não sabe o que encontrei no meio dos brinquedos?! A Rosinha. Respondi-lhe:
– Mas a Rosinha também é um brinquedo.
– Não é. A Rosinha tem nome, morou aqui na sua mesa e todo mundo cuidava dela. Não pode ficar lá. Recordei-me de um verso de Manuel Bandeira: “O meu porquinho da índia foi minha primeira namorada”.
A leitoinha regressou à mesa. No dia seguinte, uma das voluntárias do espaço, em cuja casa não há crianças, comentou:
– Quando você não quiser mais cuidar da Rosinha, pode me dar, que levo para casa e prometo que vou tomar conta. Experimentei vários sentimentos. Que força tem o preocupar-se com o bem-estar de alguém e, no caso, de um brinquedo que, a partir de uma narrativa simples, “adquiriu vida”.
O menino, que a trouxe de retorno, é de família com ausência de pai e mãe que necessita ficar o dia inteiro fora, saindo às quatro e meia de casa, para o trabalho, com o propósito de sustentar os filhos. Ele já reconhece que tratar pelo nome e cuidar fazem a diferença e impedem que alguém ou algo se perca na multidão. As histórias se entrelaçam com ternura e aprendizagem.
São muitos olhares. O infantil com desejo de ser cuidado como ímpar. O adulto de, com meiguice, ocupar-se com o brinquedo que lhe faltou. O meu de ler emoções bonitas e fortalecê-las. Educar é essa experiência de tratar as pessoas, tenham ou não limites, como únicas e essenciais. É o que importa.
Semana passada, um menino de dois anos viu a Rosinha e ficou maravilhado. Permiti que se fosse para ser magia em outro universo.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADEARTICULISTA


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