Opinião

Cristina Castilho: Trocando de pele


A menina em breve completa 14 anos e seu sonho máximo, para a maioridade, é trocar de pele. A única forma, segundo ela, será através de tatuagens pelo corpo inteiro. Não é uma questão de arte, de aceno, de moda de seu tempo, de espelhar-se em alguém que admira. Nada contra tatuagem, porém me incomodam certas reações suas, principalmente de se sentir culpada nisso ou naquilo. Acontece alguma coisa na casa – são umas dez pessoas que lá habitam -, fica rebuscando em que errou. Foi tanta a culpa imposta pelo abusador que lhe roubou a infância que, até hoje, embora com atendimentos diversos, não consegue se libertar. Não foi só com ela que fez isso. Por inúmeras vezes, a buscava com seu jeito de mosca-varejeira, que deposita “seus ovos” onde houver ferida aberta. As larvas, nascidas de “seus ovos”, corroem os tecidos vivos, corroem o coração e até os ossos e as cartilagens. Essa é uma jovenzinha que acompanho. Se há algo que não consigo digerir é como um indivíduo, com participação em oportunos setores da sociedade e que ouve a Palavra de Deus, ao se sentir atraído sexualmente por uma criança, não busca ajuda. Difícil, também, considerá-lo, no presídio em que se encontra, convertido. A primeira atitude seria a de escrever às vítimas e pedir perdão, reconhecendo o mal que fez a elas. E mais uma coisa que não assimilo é a razão de pessoas próximas a esse abusador, sem laços de sangue, demonstrarem muito mais interesse por ele do que pelas meninas maculadas. Cruel tudo isso! Criança ainda, carregava sintomas de medos e sustos. Chegou a ser, numa representação infantil, o patinho feio, na tentativa de se perceber cisne. Inútil. Com o decorrer do tempo, a culpa, que não era dela, se acentuou de tal modo que pretende mudar de pele... Para se tornar uma pessoa que não é ela? Para sentir a dor das agulhas, que pensa poder diminuir o sofrimento que traz por dentro? Para se camuflar, com o propósito de que não saibam o que se passou dos seus sete aos nove anos? Semana passada, escolheu um livro para ler: “Fazendo meu filme” de Paula Pimenta. Na capa, dois copos de pipoca. Talvez seja uma procura do parque de diversões com roda gigante e cavalinhos em carrossel que, com o uso de seu corpo lhe recusaram. Ah, antes que me esqueça, pretende fazer, na face, a tatuagem de uma cruz, semelhante a que viu em um túmulo! MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista [caption id="attachment_48200" align="aligncenter" width="800"]  [/caption]

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