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Cuidado na subida

JOSÉ RENATO NALINI | 29/12/2019 | 05:00

A Humanidade é feita de material miserável. Frágil, vulnerável, prestes a apodrecer. Ainda assim, alguns de seus integrantes se consideram imortais, infinitos e onipotentes. Iludem-se com qualquer parcela de poder ou de autoridade e menosprezam os que se encontram circunstancialmente abaixo.

Esquecem-se de que o mundo gira. Dá muitas voltas. Nem sempre as posições se conservam. A vã glória mundana tem curta duração. Hoje quem está por cima, não é impossível amanhã esteja por baixo. Aí poderá sentir o que é a medíocre postura daqueles que bajulam cargos, funções e se relacionam à base exclusiva do próprio interesse.

Qualquer partícula de autoridade vive cercada de moscas irritantes. Aqueles que pedem favores, que solicitam a intercessão de alguém que, naquele momento, consideram importante. Bajulam, agradam, elogiam e querem selfies. É uma corte pobre, porque não sabe disfarçar a mesquinhez do caráter.

Sua característica é a de fazer meia-volta com rapidez, assim que o cenário se altera. Até ontem, amigo íntimo. A partir de hoje, desconhecido. Aquele que era reverenciado e mimado passa a ser invisível. Já não interessa mais. O foco é outro. A tática é estar sempre junto ao poder.

Quem ‘vende a alma’ para conseguir um cargo, não se iluda. A mão que afaga é a mesma que apedreja. Nada substitui a autenticidade. Os ‘amigos do cargo’ desaparecem com ele. São fiéis à estratégia de tirar o proveito possível dos detentores de funções de autoridade, prestígio ou poder. As relações estabelecidas não são pessoais. São funcionais. Mais do que isso: interesseiras.

Sempre foi assim, nada indica alguma alteração no panorama. Até porque, antigamente havia brio, caráter, nobreza, vergonha na cara. Tudo material em falta na lojinha dos atributos dos homens.

Não se desconhece que os conselhos, se valessem alguma coisa, seriam vendidos e não prodigalizados gratuitamente. Mas quem tiver juízo, não se deixe enlear na fantasia diáfana do subserviente. Ele será o primeiro a detoná-lo ou, simplesmente, ignorá-lo quando você fizer o caminho de volta.

Cuidado com a subida, portanto. Ela pode dar vertigens. Mas um dia, é praticamente incontornável, você descerá pela mesma escada.

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2019-2020.


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