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Cultura do ódio

EGINALDO HONÓRIO | 05/06/2020 | 05:29

Na trilha da matéria “Portas Abertas”, na qual disse que os maldosos se apresentaram causando espanto geral, pois pessoas que se dizem da paz, do amor, da solidariedade, religiosos e afins, apoiam violência em sentido amplo, pensamentos, atos praticados e divulgados por torturadores, racistas, machistas. Isso não se harmoniza.

Vivemos presenciando, especialmente pela mídia social, ofensas de toda ordem, apenas e tão somente pelo fato de o interlocutor ter pensamento diferente, jamais esperado, permitindo e quase obrigando ao silêncio, visando preservar a própria saúde intelectual e autoestima.

Venho enfrentando esse tipo de discussão há muito tempo, na medida em que coloco em debate as questões raciais envolvendo a minha origem étnica. Ouvindo também, invariavelmente, que se tratam de “coisas de minha cabeça”, “de minha visão de mundo”, vez que “não existe desigualdade” e tudo o mais.

O maldoso fenômeno se repete todos os dias e nem é necessário repetir o que a mídia apresenta, envolvendo integrantes da comunidade negra desde a escravidão, que me autoriza a falar sobre o tema, haja visto que os meus estudos vêm de bem longe.

Como também disse em outra oportunidade, a confiança na impunidade ou, na pior das hipóteses, a condenação a pena máxima de cinco anos de reclusão. Em 19 de maio de 2020 a ex-prefeita de Campo Grande foi condenada a um ano de reclusão e multa, substituída pelo pagamento de um salário mínimo a uma instituição de caridade, em vista da idade e estado de saúde precário, em processo que tramita desde 2014 por afirmar que “preto nasceu para me servir.”

Fico aqui pensando há muito se esse é o pensamento dessa pessoa. Quantas vítimas causou ao longo do tempo? Alguém parou para avaliar o estrago feito no íntimo das vítimas? Ainda que cumpra a pena, a vítima carregará esse dano para todo o sempre, pois é uma ferida que não cicatriza. Se fosse o contrário, qual seria a reação?

Saindo do ambiente criminal, onde a pena é tão pequena que não inibe ao racista repetir a ofensa, no cível, as indenizações são também pequenas. Isso quando se consegue provar, porque as pessoas que presenciam fatos dessa natureza não se colocam no lugar por medo de se envolver, porque não lhes atinge diretamente. Pela equivocada institucionalização da indústria do dano moral nesse ambiente, o resultado é o mesmo.

O causador do dano paga valor ínfimo e, no dia seguinte, repete porque nem sentiu o peso do estrago que causou. Coloquemo-nos no lugar da criança discriminada na escola. O subconsciente não esquece. Idem no trabalhador rejeitado pela cor da pele, não pela capacitação que, chegando em casa, o filho pede pão porque está com fome ou mesmo doente. O que poderia fazer pós-discriminação e dificuldade de toda ordem para manter a família?

Comendador doutor EGINALDO HONÓRIO é advogado.


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