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Desigualdades que torturam

MARGARETH ARILHA | 10/06/2020 | 05:05

Hoje é a humanidade vive um tortuoso caminho, após a morte e enterro de George Floyd. Nunca o planeta viveu tanta unanimidade quanto à urgência de lutar pela justiça racial. As discriminações e exercícios de poder branco parecem nunca ter fim.

O universo simbólico que elas representam foram muito bem explicitadas por Lacan, que disse em 1972: “o que vem aumentando e que ainda não viu suas últimas consequências, e que, por sua vez, se enraíza na fraternidade do corpo, é o racismo. Vocês ainda não ouviram a última palavra a respeito dele.”

A crueldade da humanidade vinha se revelando. Foi o que se expressou de maneira gritante na morte definida pela impossibilidade de respirar. “I can’t breath”, foi a frase que como agulha fina tocou os corpos e corações já saturados pela pandemia do covid-19, e pela dificuldade humana em favorecer a construção de mundos mais igualitários. Nós mesmos nos conduzimos a um mundo em que falta ar, pelo desejo torturante que, além do que tudo, busca uma perversa satisfação a qualquer custo.

No Brasil, foi efetivamente na década de 80 que uma robusta presença do movimento de mulheres negras irrompe como força viva e inspiradora de críticas a sociedade. Ao demandar direitos de um Estado que, de certa forma, renascia após um longo período de presença da ditadura militar, começa-se a problematizar a insuficiência das demandas de direitos das mulheres e se não se equalizassem os direitos das negras em sua especificidade, e em cruzamento com outras desigualdades sociais.

As mulheres representantes dessa demanda política, Sueli Carneiro e Edna Rolland tiveram, efetivamente, a condição histórica e coragem de fazê-lo junto ao Conselho Estadual da Condição Feminina do Estado de São Paulo em sua primeira gestão, no início dos anos 80, sob a presidência da socióloga Eva Blay.

Foi a partir do importante questionamento público, mostrando como era insuficiente a presença de mulheres brancas para pensar a condição de discriminação das mulheres no estado de São Paulo e pensar políticas públicas favoráveis a superação das desigualdades vividas que as décadas que se seguiram mostraram que especialmente os homens jovens brasileiros negros não podem respirar.

Que as crianças negras desse país não podem respirar. E que as mulheres negras, de todas as idades, não podem mais respirar. Por mais ar, por mais vida, por mais dignidade. Por mais direitos de respirar em paz!

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo) da Unicamp.


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