Opinião

Deus seja louvado


Olá caríssimos leitores. Prosseguindo na caminhada, trago aqui outra abordagem que pode até ter passado despercebida: ‘Deus seja louvado’ em todas as notas de real. Pesquisando um pouco, constatamos que a ideia partiu do então presidente José Sarney (católico praticante), e passou a ser impressa no ano de 1986. Já não suficiente o privilégio a um segmento religioso nos espaços públicos, consistentes na ostentação de crucifixo em tais lugares, temos também a inserção dessa frase que, a meu sentir, depõe contra a laicidade garantida pela Constituição Federal. Qual seria a reação se em tal lugar constasse: ‘Buda seja louvado’; ‘Olodumarè seja louvado’; ‘Tupã seja louvado’ e por ai vai? De qual Deus você fala ‘cara pálida’? Tudo isso nada mais é que o tal proselitismo subliminar, além de tipificar discriminação, na medida em que, ao privilegiar um segmento, discrimina os demais. Isso é incontestável, sendo também incontestável que os crucifixos não são um simples ornamento. A sutileza é inegável. O Brasil é imbatível nas técnicas discriminatórias. Como sabemos, o racismo e discriminação são praticadas apesar da aparente contradição, extrema, estratégica e maldosamente veladas. Em Jundiaí, por exemplo, a concessão de títulos honoríficos até o ano de 2017 era oferecida a integrantes da igreja católica e aos evangélicos. Com a nossa interferência e provocação, o vereador delegado Paulo Sérgio propôs e foi aprovada a resolução alterando o Regimento Interno, para o fim de contemplar religiosos cristãos e não-cristãos em autêntica medida de respeito aos demais segmentos religiosos. Já disse, várias vezes, que aqueles que ocupam postos de mando no Poder Público, hão que ser 100% neutros sob pena de incursão em atos de discriminação, vez que tem o dever moral, legal, ético e de compromisso formal em atender a todos e todas indistintamente sem predileção a quem ou qualquer quer que seja. Caso contrário, se determinado segmento religioso prestigiar com diferença o de sua preferência em detrimento dos outros; se homem prestigiará o segmento; se mulher idem, homossexual; deficiente físico; negro; e por aí vai. Assim sendo, a cautela é o que se recomenda em total respeito, no mínimo, à dignidade da pessoa humana, à liberdade de crença, suas manifestações e também aos que não nutrem fé alguma, razão pela qual a frase "Deus seja louvado", na minha opinião, deve ser eliminada das notas de real, pois que transita não só pelas mãos de religiosos ou de determinado segmento religioso. Martin Luther King disse não lamentar tanto os crimes perversos quanto o estarrecedor silêncio dos bondosos. Estamos, há muito tempo, diante disso. Pessoas se compadecem, todavia nada, ou pouco, fazem para minimizar as diferenças e tais posturas! Lamentável! EGINALDO MARCOS HONÓRIO é advogado e membro do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Jundiaí – [email protected]

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