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José Renato Nalini: Devedor insolvente de meu pai

JOSÉ RENATO NALINI | 12/08/2018 | 05:00

Por inúmeras razões, confesso-me insolvente devedor de meu pai. Não tive tempo – ou não me aproveitei desse valor que ninguém devolve – para demonstrar a ele minha gratidão e reconhecimento. E para pedir perdão por incompreensões e equívocos. Fruto de profunda ignorância que acomete os jovens pretensiosos.

Não sei quando foi que troquei aquela admiração infantil por uma soberba tola. Afinal, houve um tempo em que minha escolarização suplantou a de meu pai. Não creditei ao seu sacrifício, ao seu labor incansável e à sua luta desproporcional o investimento que fez em minha educação. Achei-me superior. Não devolvi a ele o carinho de que ele era tão carente.

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E ele continuou a ser quem era. Sereno, humilde, tranquilo. Elogiando os parcos êxitos do primogênito. Recebendo a compensação em ternura dos outros três filhos. Minha arrogância prosseguiu em busca de novos cursos, de pós-graduação, de títulos e de conquistas vãs.

E ele continuava ali, pronto e disponível a me servir. E o fez com devotamento até o último de seus dias.

Finalmente acordei. Consegui revisar nossas vidas, reavaliar sua trajetória, sopesar as vicissitudes que encontrou e o esforço imenso que ele fez para tornar mais leve e prazerosa a existência de sua prole.

Mas penitencio-me de nunca haver externado, com veemência e explicitude, essa conversão filial. Acreditei contar com ele para todo o sempre. De repente, ele partiu sem se despedir.

Estou em falta com esse pai esteta. Sua formação: modelador. Seu hobby: o teatro amador. Sua predileção: o futebol. Fé católica inquebrantável. Amigo da terra e da natureza. Tão afeiçoado à sua família que não suportou sobreviver ao filho mais apegado a ele.

Privado de condições de exteriorizar os sentimentos de quem se sente em falta e com remorsos, só me resta o testemunho expresso, a intenção de deixar um livro com recortes de
sua vida, projeto que tentei finalizar no centenário de seu nascimento – 2015. Empenhar-me-ei a ultimá-lo. Até para inspirar possíveis filhos também faltosos, a que não laborem no mesmo erro. Não hesitem e não deixem para amanhã. Digam, repitam à exaustão, que o seu pai sempre foi e continua a ser herói.

Feliz Dia dos Pais, inolvidável Baptista Nalini!

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

 

Foto: Divulgação

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