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Dom Vicente Costa: Deixar-se tocar pelo sagrado

DOM VICENTE COSTA | 17/02/2019 | 14:19

“Movido de compaixão, Jesus estendeu a mão, tocou nele (no leproso)”, curando-o (Mc 1,41).
Queridos leitores e queridas leitoras: o inglês Charles Darwin, com a sua famosa teoria da evolução das espécies, afirmava que sobreviveria – principalmente num mundo em constantes mudanças – quem fosse capaz de adaptar-se às alterações do ambiente.
Vivemos este tempo de constantes mudanças que afetam o nosso modo de viver e de nos relacionar. São mudanças que impactam a vida pessoal, a convivência familiar, as relações de trabalho, a ética, a moral e até mesmo a nossa relação com o sagrado.
Sem entrar no mérito da diversidade das religiões, todos nós temos necessidade de um encontro com o transcendente. Tal encontro sempre deverá gerar uma transformação pessoal.
O sagrado nunca passa por nós sem deixar marcas profundas ou, ao menos, suscitar em nós inquietudes. Já dizia o autor alemão Wunibald Müller, no seu livro que tem como título o mesmo deste artigo (Petrópolis: Editora Vozes, 2004, p. 43), que “ser tocado pelo sagrado é uma experiência que deve envolver com sua atmosfera o meu pensar, o meu sentir e o meu agir”. Mas permitimos que isto aconteça realmente conosco?
Nos Evangelhos podemos encontrar o modo como Jesus agia com aqueles que dele se aproximavam. Ele fazia questão de aproximar-se da pessoa, tocando-a e curando-a. Entre tantos exemplos, podemos lembrar-nos do leproso (cf. Mc 1,40-42), da mulher que andava encurvada havia dezoito anos (cf. Lc 13, 10-13), da sogra de Pedro atormentada com uma grande febre (cf.Mt 8, 14-15) e do filho da viúva de Naim,que estava sendo levado para ser enterrado no cemitério(cf. Lc 7, 11-15).
O toque não é uma experiência marcada apenas por sensações e emoções momentâneas. O toque não é necessariamente uma atitude de levar as mãos em direção a alguém. O toque passa pelo nosso cotidiano, pelas coisas que muitas vezes não valorizamos: o cuidado com nós mesmos, a atenção e o respeito para com o outro, a valorização da família, o desprezo dos vícios, o estar na presença daqueles que amamos.
Neste contexto, adaptar-se às alterações do ambiente em que vivemos é deixar-se tocar pelas coisas sagradas, ter o coração tocado pelo testemunho de alguém capaz de realizar um ato extraordinário de caridade, ser sensibilizado interiormente por um grito de alguém que pede ajuda.
Acredito que só serão fortes o suficiente para resistir às transformações aqueles que mais rapidamente se adaptarem a elas, sem perderem sua essência e dignidade. Reinventar-se é o caminho. Este também será o caminho das pessoas de bem e da boa vontade. É preciso reinventar-se, deixando-se ser tocado pelas coisas mais sagradas que estão escondidas nos recôncavos de nossas vidas.

DOM VICENTE COSTA é bispo diocesano de Jundiaí

DOM VICENTE COSTA


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