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Dom Vicente Costa: Vida e vocação

DOM VICENTE COSTA | 19/08/2018 | 06:00

“Sai da tua terra… E vai para a terra que eu te indicarei” (Gn 12,1). Penso que a vida, o mundo e a vocação de cada pessoa são marcados pela força do milagre e do mistério. A nossa história pessoal, muitas vezes, nos surpreende e nos faz refletir sobre o “agir de Deus” em nós.

Causa-nos “temor e tremor” (Fl 2,12), quando nos vemos guiados pelo “sopro” de Deus, sabendo que este “vento”, misteriosamente, “sopra para onde quer” (Jo 3,8). Carregamos conosco a certeza de que decidimos e programamos tudo, mas nem tudo acontece do jeito e na hora que queremos ou esperamos. E é neste sentido que acreditamos numa força sobrenatural que rege o mundo e a humanidade de uma maneira tão soberana que ainda se consegue respeitar e manter o livre arbítrio de cada um.

Abraão estava tranquilo e confortável, seguindo em frente com a sua vida, já acostumado ao trabalho do dia a dia e ao cuidado com as coisas “corriqueiras” (cf. Gn 12,1-5). E eis que a sua vida e vocação passam por uma mudança repentina e brusca. Ele ouve “a voz de Deus” no seu coração e na sua alma, voz esta tão impetuosa que lhe ordena sair da segurança e do comodismo de sua terra para ir a outro lugar.

DOM VICENTE COSTAA voz de Deus diz a Abraão: “Sai de tua terra e vai para onde eu te mostrarei” (cf. Gn 12,1). Chamado este cheio de incertezas e de inseguranças, pois Deus não dá nenhuma explicação, nenhum detalhe da trajetória desta viagem. De fato, a vida e a vocação são um dom, um milagre. Mas, também e, sobretudo, um mistério insondável aos olhos puramente humanos.

Abraão vive, de certa maneira, a história de cada um de nós, muitas vezes tão instalados e seguros naquilo que fazemos e no modo como vivemos. No entanto, também ouvimos “a voz de Deus” que grita no nosso interior e não nos deixa quietos, enquanto não dermos uma reposta. É preciso ter fé, coragem e desapego para sairmos de nossas “terras seguras” e irmos para onde Deus nos enviar. Precisamos vencer muitos medos e muitas sombras para não nos acovardarmos diante da novidade do chamado que Deus nos faz. Só pela fé e muito amor poderemos remover as “montanhas” e os desafios da nossa caminhada existencial, na certeza de que “nada nem ninguém impedirá o agir de Deus em nós”.

A nossa vida e a nossa vocação têm um objetivo muito claro. Tornar a nossa história um encontro e um serviço. Quem nos inspira é a vida, a missão e a mensagem de Jesus, que se apresenta como “caminho, verdade e vida” (Jo 14,6). O mestre da vida e da vocação nos ensina que o serviço dá sentido à nossa existência. “Eu não vim para ser servido, mas, sim, para servir” (cf. Mt 20,28). Seguindo os ensinamentos do Mestre, Santo Agostinho registra em sua oração: “Tarde demais eu te amei. Mas Tu me chamaste, clamaste por mim e Teu grito rompeu a minha surdez”.

Realmente, para servir, é preciso vencer a surdez que muitas vezes nos faz ficar parados em nossas falsas seguranças. E Rabindranath Tagore, um grande pensador indiano, resume assim o sentido da felicidade: “Adormeci e sonhei que a vida era alegria; despertei e vi que a vida era serviço; servi e vi que o serviço era uma alegria”. Que a nossa vida e a nossa vocação se tornem um hino agradável a Deus, quando permitem o encontro com o Transcendente e o serviço ao outro. E para que tudo isso aconteça, é preciso crer no milagre e no mistério que se renovam a cada segundo da nossa vida!

DOM VICENTE COSTA é bispo diocesano de Jundiaí


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