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Dom Vicente: Silêncio que fala, barulho que se cala

DOM VICENTE COSTA | 03/02/2019 | 08:30

Há “tempo de calar, tempo de falar” (Ecl 3,7).
O nosso dia a dia é sempre cheio de afazeres e de correria. Num mundo tão competitivo, quem não se dedicar para ser melhor, acaba sendo marginalizado pela sociedade, sobretudo nos âmbitos do trabalho e dos estudos.
Entretanto, em meio a tanta agitação, é de extrema importância que nós paremos, de vez em quando, seja para descansar, seja para refletir ou para tomar decisões acertadas. Sim, em meio a tanto barulho externo como também interno, precisamos aprender a arte de silenciar.
Deus fala através do silêncio. Muito conhecida é a cena do profeta Elias, que fugindo para o deserto com medo dos seus perseguidores, quis encontrar-se com Deus. Na entrada da caverna, conseguiu isto nem no vento, nem no terremoto, nem no fogo, mas sim, “no meio do silêncio de uma leve brisa” (cf. 1Rs19,9-12). Encontramos também nos Evangelhos, como Jesus, antes de tomar decisões importantes, fez a experiência do silêncio. Ao Pai orou: “naqueles dias, Jesus foi à montanha para orar, e passou a noite em oração a Deus” (Lc 6,12).
Com efeito, o silêncio não quer dizer tão somente ausência de ruídos, pois, quando paramos para refletir sobre a vida, quando dedicamos a nós mesmos um pouco de tempo, percebemos que a vida toma um novo sentido. Mesmo para os que estão mais inseridos nas correrias do cotidiano, um tempo de reflexão, para organizar as ideias e o curso da vida é sempre oportuno. Decisões tomadas com calma são mais certeiras!
Devemos considerar também que nosso corpo não é uma máquina à prova de falhas. Como qualquer organismo, ele precisa de um tempo de repouso, como uma boa noite de sono, uma conversa sincera com os amigos, uma visão contemplativa diante das maravilhas da natureza ou mesmo uma refeição feita sem pressa.
Deus nos criou para que vivêssemos em plenitude. Mas, para isso, nós também devemos fazer a nossa parte. Não é à toa que grandes personalidades, de ontem e de hoje, exercitam a prática de recolher-se, ou mesmo de retirar-se da vida cotidiana por algum tempo, dentro das possibilidades. Isso faz um bem enorme ao ser humano, evitando, inclusive, doenças físicas e psíquicas.
Que, na nossa vida, sempre sobre tempo para nós mesmos, para a família e os amigos e para Deus, fonte da vida e de todo bem. E tudo o mais será mais bem aproveitado, pois assim viveremos de maneira íntegra e em paz com nós mesmos e com os outros.

DOM VICENTE COSTA é bispo diocesano de Jundiaí

DOM VICENTE COSTA


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