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Eduardo Carlos Pereira: Memórias de Revistas

EDUARDO CARLOS PEREIRA | 30/06/2018 | 06:00

Conhecendo a série das revistas Acrópole, que mensalmente registraram a vida das construções, da arquitetura, dos estilos e do que foi bom ou ruim durante o século 20, podemos afirmar: é um conjunto de periódicos para ser descoberto e trazer aos nossos dias conteúdos similares que compuseram Jundiaí e outras importantes cidades paulistas. É instigante o que não conhecemos na arquitetura, nas manifestações populares e na construção, estando tão vizinho de todos nós. Acontece cotidianamente que, antes mesmo de conhecemos essas construções na cidade, as casas são demolidas tão rapidamente que esquecemos o que esteve ali até o dia anterior! Depois de removida, sequer lembramos que naquele terreno vazio teve uma casa.

Pequenas lojas, oficinas, gráficas ou lojas de consertos de equipamentos domésticos somem da mesma maneira que a TV antiga sumiu e passou a ser de plasma. E da mesma maneira que não se consertam mais eletrodomésticos. Tudo vai para aquela categoria de lixo eletrônico. Por que isso? Para indagar por que devemos tentar salvaguardar lugares da memória? Ou, pelo menos, fazer com que possam ser lembrados? Ações de preservação são válidas, mesmo que mudem o uso do prédio ou loja. Mas uma placa pode salvar e informar o que foi feito ali, por quantos anos e porque faziam aquilo. Essas questões não são regras – e nem tem quase nada para garantir a salvaguarda desta história recente. São um alerta para que se façam estudos, registros e inventários sobre esses itens em desaparecimento tão rápido quanto desprotegidos.

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O conjunto dessa vida cotidiana do século 20 que sobrevive tenuamente, hoje, precisa ser identificado, estudado e salvo. Como? Com a ajuda das revistas que são um dicionário para conhecermos como foram feitos e por qual razão. A classificação recente desse importante conjunto de documentos e inventários das revistas Acrópole, por exemplo, permite lembrar que as casas populares para venda estavam classificadas em páginas de outra cor e papel inferior. No fim das revistas, apareciam os classificados, que ofereciam casas para alugar ou arrendar (ou investir) e, pasmem, eram muito semelhantes às nossas casas, das ruas do Centro ou Vila Arens.

O que deve nos instigar e provocar, mais ainda, para entender que a vida de cada um nessas casas era diferente da vida de cada mansão apresentada nas páginas principais. Estas eram as modernas, as ecléticas e as dos “donos da grana”. Pena que os proprietários dessas casas “importantes” estejam lá elencados, mas os moradores das mais simples do final das revistas estão colocados somente em livros de pesquisas. Como feitas pelos arquitetos Nabil Bonduki, Erminia Maricato e Eva Blay, com classificações de ordem, classe de operários ou operariado ou rentistas (de aluguel). Infelizmente, longe de quem ali viveu e o que fez nessas casas operárias. Sem sabermos a história dos indivíduos, que é essencial para a continuidade da história social. Apagada.

EDUARDO CARLOS PEREIRA é arquiteto e urbanista, autor do livro “Núcleos Coloniais e Construções Rurais”. Foi presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Jundiaí (Compac), de 2008 a 2011, e conselheiro do Compac, de 2014 a 2016. É membro do Icomos – Conselho Internacional de Monumentos e Sítios


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