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Eduardo Pereira: A história no chão

EDUARDO CARLOS PEREIRA - opiniao@jj.com.br | 10/03/2018 | 05:50

Dezenas de bens em processo de tombamento estão em ruínas, como a estação pequena da Fepasa junto do viaduto da Ponte São João, a fábrica Japy, a Casa Cosin, na Colônia, e outras que há anos foram identificadas pelo Compac, estudadas e defendidas e continuam em processo de tombamento. Trâmites burocráticos e lentos escondem o desinteresse político do município. A Fepasa foi parcialmente higienizada e ocupada pela cultura. Boa atitude, mas foi uma ocupação que também varreu os documentos e pinturas que estavam em frangalhos, mas pelo menos podíamos verificar que existiam.Agora para onde foram os documentos que falam que estão prontos para serem removidos para fora de Jundiaí? Alguns falam e, mesmo que fosse boato, esse fato precisa ser apresentado e ter claramente os fins os técnicos e responsáveis por quaisquer ações.

Continuam as diversas irregularidades em Jundiaí – especialmente no Centro. O chefe dos fiscais, engenheiro Angelo Baldi, me deixou mais aliviado e disse que no centro histórico a única obra embargada é a do “Tupã”, na Rua do Rosário, 153, e que ele vem cumprindo o embargo. A outra é a Cica. Disse também que a Casa Rosa está parada e sugeriu que vai cair… O panorama não está nada favorável. O que fizeram na Cica foi um golpe nas instituições, em todas. Desrespeito, transgressão e poder foram os motores da ousadia dos empreendedores e técnicos. Sabiam e sabem que não podem demolir, mas fizeram na cara de todos. O que se viu: demoliram partes de edifícios comprometendo o conjunto industrial em processo de tombamento. Posso afirmar que, por ocasião de uma reunião em meu escritório, em 2016, o arquiteto Jaime Lago apresentou o projeto que fez a pedido dos empreendedores e avisei que não poderia fazer o que pretendia. Não adiantou…

A arquiteta Rosana Ferrari, conselheira do CAU, me respondeu sobre a gestão de patrimônio histórico assim: “As questões de conflito são resolvidas a rebote dos problemas. A falta de políticas públicas do Estado culmina em solução ao acaso, que permite a deterioração do patrimônio”. Falou também que justificativas para as demolições são o risco de ruírem sozinhas e ainda discutem juridicamente, transferindo ao poder público a responsabilidade de acidente, ou seja, “lavam as mãos”. Perguntei para a professora Regina Kalman, conhecida pelos fiscais e conselheiros como “a fotógrafa que registra tudo e faz o impossível para preservar bens culturais”. Tem opinião divergente e diz que, no Centro, existem reformas sem placas que não estão sendo fiscalizadas. O Compac não tem fiscais e se apoia na prefeitura. Esta não tem estrutura técnica para policiar infratores. Diante da situação, o panorama que se vislumbra constitui terreno fértil para que façam o que bem entenderem em suas propriedades. Ninguém detém a voracidade de alguns empresários: fazem qualquer coisa para descaracterizar patrimônios culturais.

EDUARDO CARLOS PEREIRA é arquiteto e urbanista, autor do livro “Núcleos Coloniais e Construções Rurais”. Foi presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Jundiaí (Compac), de 2008 a 2011, e conselheiro do Compac, de 2014 a 2016. É membro do Icomos – Conselho Internacional de Monumentos e Sítios


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