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Eduardo Pereira: Estudante morre baleado em conflito político

EDUARDO CARLOS PEREIRA | 06/10/2018 | 07:30

Com apenas 20 anos, o universitário José Guimarães morreu depois de ser baleado por um grupo extremista enquanto protestava contra a ditadura. As investigações ainda não chegaram ao assassino. Essa situação é inaceitável diante de uma Constituição Federal que assegura o direito à vida e à liberdade de expressão e que neste mês comemora seus 30 anos em vigência no Brasil.

O estudante fazia o curso de filosofia na Universidade de São Paulo (USP) e o grupo extremista, chamado de Comando de Caça aos Comunistas, envolvia estudantes da Universidade Mackenzie. O conflito ocorreu no início de outubro, na rua Maria Antônia.
Quando esses fatos ocorreram, em 1968, eu estudava no Geva e fazia parte do movimento da União Paulista de Estudantes Secundários. Tínhamos uma reunião no prédio quase destruído por tiros e pedras no dia seguinte ao conflito e vimos o rastro daquele confronto desigual.

O extremo daquele ano foi o Ato Institucional nº 5 (AI-5), que fechou até o Congresso e endureceu o regime. Mesmo em Jundiaí, alguns delegados mandavam recado para que os estudantes se livrassem de obras de arte ou livros que pudessem ser indícios de suspeitas de terrorismo. Assim fiz: queimei livros e as obras de arte com temas de Edson Luiz (estudante morto no mesmo ano no Rio), Che Guevara ou fome no Nordeste.

Durante anos de ditadura mais acirrada, contra tudo o que acontecia no mundo e com campanhas “ame ou deixe-o”, os intelectuais e políticos expulsos e exilados voltaram apenas em 1979 com a anistia. Artistas deixaram marcas nas letras, nas músicas e nos museus e exposições. Tudo isso pode ser visto e comprovado no Memorial da Resistência, ao lado da Estação Júlio Prestes. O instituto Tomie Ohtake apresenta a exposição “AI-5 50 anos – Ainda não terminou de acabar”, até o dia 4 de novembro.

Foram necessários muitas lutas e esforços para que o Brasil chegasse a uma Constituição Cidadã… E nela, os princípios da liberdade democrática foram recuperados. Ditadura nunca mais! Hoje, as eleições acontecem garantidas pela Constituição de 88 e seus princípios. Todos os eleitos precisam voltar a defender os brasileiros: na Constituição ou pela Constituição. Ditadura nunca mais!

EDUARDO CARLOS PEREIRA é arquiteto e urbanista, autor do livro “Núcleos Coloniais e Construções Rurais”. Foi presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Jundiaí (Compac), de 2008 a 2011, e conselheiro do Compac, de 2014 a 2016. É membro do Icomos – Conselho Internacional de Monumentos e Sítios

Eduardo Carlos Pereira - colunista Jornal de Jundiaí


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