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Eduardo Pereira: Tarsila do Amaral e a antropofagia de Itupeva

EDUARDO CARLOS PEREIRA | 23/03/2019 | 07:30

Nessa turbulência política brasileira, o que posso considerar como notícia boa são os acontecimentos no MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova Iorque) envolvendo uma importante mostra da nossa modernista mais famosa e querida, Tarsila do Amaral. Um símbolo nacional reconhecido pelo lugar máximo das artes do mundo. Trata-se de uma exposição realizada recentemente que teve um recorde de visitação de mais de duzentas mil pessoas. Não é pouco! Aqui não sei se conseguiria tanto público. O que fica é o reconhecimento definitivo de sua arte que tem no ‘Abaporu’, o símbolo do que é o país e que tem o status – tal qual a Monalisa tem no Louvre – no Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (MALBA) e é apreciado quase como sagrado. O antropofagismo tem marcado desde 1922 o caráter moderno do Brasil… Aqui se consome. O país se come! Não suficientemente satisfeito com a exposição, o MoMA compra a obra “A lua” por 20 milhões de dólares, que passa a ser a obra mais cara de uma pintora latino-americana, em sua coleção. Isso altera ainda mais o nível de importância deste movimento brasileiro. Quero lembrar a geografia dessa obra e desse período.
Andando em trem para São Paulo em um sábado, senti o quanto que perdemos no conforto deste veículo. Lembrei das crônicas que Tarsila escrevia para o Estado de São Paulo na década de 1920, em especial a que descrevia sua viagem de trem pela linha sorocabana, para a estação MonteSerrat, nesse tempo em Jundiaí e hoje Itupeva. O destino era a fazenda Santa Tereza do Alto, local do efervescer de sua turma, seu time, dos protagonistas da cultura brasileira. Descrevia o charme da viagem, a elegância do trem, de seu pai sempre na primeira classe e do caráter quase ritual dessa viagem de luxo e modernidade. Incrível! Hoje MonteSerrat quase um fim de linha sem trem e que foi sede das fazendas, da geografia e ambiente que fez a iconografia da pintura e da revolução modernista construída ali. Pude viver (muito tempo depois) o final dessas incríveis viagens indo para São Roque da Chave nos anos 1950, duas estações antes de Monte Serrat. O prazer de estar num trem com locomotiva à vapor, foi uma marca inesquecível. Ia alegre para as férias na fazenda, criança e sozinho, mas numa viagem completamente segura para a estação que parava em frente a fazenda. O melhor era o tempo das chuvas que enchiam as várzeas do Rio Jundiaí e o trem andava sobre as águas, quase de uma maneira surrealista e fantástica. Com a cabeça sempre pra fora da janela, podia sentir os respingos do vapor que a máquina expelia. Hoje, sessenta anos depois, longe dali, indo pra São Paulo vejo que essa involução – um trem sem ventilação fervendo no calor – transportam passageiros como gado. Um percurso que, se tudo correr bem, são duas horas.
Só piora? Tarsila, antes, em seu ambiente inspirador de pedras, palmeiras imperiais, cactos e capivaras, agora o que se pode ver hoje é o abandono e a ocupação de loteamentos nos pastos. Exatamente o oposto do que ela representa e conseguiu fazer.

EDUARDO CARLOS PEREIRA é arquiteto e urbanista, autor do livro “Núcleos Coloniais e Construções Rurais”. Foi presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Jundiaí (Compac), de 2008 a 2011, e conselheiro do Compac, de 2014 a 2016. É membro do Icomos – Conselho Internacional de Monumentos e Sítios.

Eduardo Carlos Pereira - colunista Jornal de Jundiaí


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