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Eginaldo Honório: Democracia Racial?

EGINALDO HONORIO - opiniao@jj.com.br | 16/03/2018 | 02:00

Democracia racial é a designação utilizada somente para descrever as relações raciais no Brasil. Estranhamente se apregoa que não há racismo no Brasil e que vivemos em exemplar harmonia, o que não ocorre, bastando para tanto verificar os indicadores sociais para essa simples conclusão. Nesse sentido, é bastante oportuno o refrão da Escola de Samba Beija-Flor: “Oh Pátria amada, por onde andarás?/Seus filhos já não aguentam mais”! A Pátria se faz presente. Todavia, o que não está presente é a verdade, o respeito ao cidadão brasileiro, à lei, à ordem, à dignidade da pessoa humana etc. Como se vê a todo momento por toda a mídia, é criada uma inegável e verdadeira “injustiça social”.

RACISMO EGINALDO MARCOS HONORIO

Dúvidas também não pairam no que diz respeito aos integrantes da comunidade negra, cujos integrantes são as maiores vítimas de todo processo de exclusão que vem desde o Império. Lembrando que, por ocasião da eleição do primeiro presidente da República – Prudente de Morais – em 1894, eleito com 270 mil votos, representando, aproximadamente 2% do total dos votos válidos, sabendo que só poderiam votar os homens e alfabetizados, excluindo-se, portanto, escravizados e mulheres (maioria absoluta). As mulheres só puderam votar a partir de 1935 e, natural e literalmente, não gozavam da independência que detêm hoje, portanto obedeciam fielmente seus maridos, pais e avós. Também é fato. Assim vivemos por muito tempo sob o jugo masculino, branco e de um único segmento religioso, que por sua vez, por muito tempo, permitiu que somente os “homens bons” poderiam votar, passando pelos iluministas que corroboraram com a maldade imposta na época em que negros não tinham alma (eram coisas) e as mulheres eram subservientes com efeitos até os dias de hoje, na medida em que elas, apesar do avanço conquistado, ainda são tratadas com injustificada desigualdade e os negros, por sua vez, excluídos de forma institucionalizada.

Como se sabe, todo ser humano cresce de acordo com bons exemplos e, infelizmente, os apresentados dos componentes da Comunidade Negra, injustificadamente, são retratados de forma humilhante, fazendo com que as pessoas admitam que ali é o seu lugar. Esse importante segmento da sociedade é mantido abaixo da linha da pobreza e, invariavelmente, retratado em situações de risco, de tragédias, modelo de presidiários, negativa de oportunidades e a grande maioria das vitimas de homicídios, a exemplo do que é apontado pela ONU: “a cada 23 minutos um jovem negro morre no Brasil”. Pouco se tem feito para evitar esse genocídio! Em respeito ao título deste canal de comunicação, na minha opinião já passou da hora de mudar todo esse quadro, em nome da “dignidade da pessoa humana” na acepção jurídica do termo. Estamos perdendo talentos pela negação de oportunidades e a não divulgação dos bons exemplos: Nilo Peçanha (único presidente negro do Brasil), Teodoro Sampaio, os irmãos Rebouças, Francisco Glicério, Machado de Assis, Joaquim Barbosa, Milton Santos… E é de Milton Santos a frase: “Existem apenas duas classes sociais – a dos que não comem e a dos que não dormem com medo da revolução dos que não comem”.

EGINALDO MARCOS HONORIO é advogado e membro do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Jundiaí – eginaldo.honorio@gmail.com


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