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Eginaldo Honorio: É necessário falar sobre racismo?

EGINALDO MARCOS HONORIO | 10/05/2019 | 07:30

Confesso que adoraria responder de forma negativa, posto que, em razão do que vimos presenciando, não há alternativa senão tocar no assunto visando despertar o olhar e direcionar as ações para eliminar ou, pelo menos, minimizar tanta maldade. O silêncio é tão perigoso quanto a ação ou quiçá muito pior, na medida em que, diante dos descalabros ou abusos, mantivermos a inércia, estamos contribuindo pela continuidade.

Martin Luther King disse: “Nossa geração não lamenta tanto os crimes perversos quanto o estarrecedor silêncio dos bondosos”. A frase é muito oportuna e é, infelizmente, o que estamos vivenciando. Recentemente a mídia divulgou o fuzilamento da família negra o Rio de Janeiro; a juíza campineira afirmando que o latrocida não tinha estereotipo de bandido porque tem olhos pele e cabelos claros; o fuzilamento da vereadora Mariele; A Cláudia Silva arrastada por viatura da polícia militar no Rio de Janeiro; o garçom fuzilado por portar um guarda-chuva; a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado; negros barrados nas portas giratórias dos bancos e em outros espaços públicos tal qual os famosos “rolezinhos” em shopping center; barrados no mercado de trabalho público ou privado; agredidos e mortos no supermercado; ataques as templos religiosos de matriz africana; não cumprimento da lei que obriga estudo da história africana, afro-brasileira e indígena e por ai vai. Temos que falar nisso sim e até que essas maldades cessem ou, pelo menos, diminuam!

Tenho notado que a sociedade, como um todo, sabe muito bem de tudo isso e fazem de conta que desconhecem e que, por não lhes atingir diretamente, alegam que se trata de “mimimi”! Não é necessário ser, estar ou sentir-se como tal, todavia, é preciso que esteja mais próximo da realidade. É fácil entender o que estou dizendo: Se tens grávida na família, ao sair as ruas, deparará com grávidas a cada segundo. Por que? Porque estamos no mesmo clima e em razão disso passamos a reparar. Ao trocar de carro passamos a reparar na quantidade de veículos iguais. Passamos a reparar. Eu quebrei a mão direita, no ano de 2007 e fui obrigado a mantê-la enfaixada por bom tempo. Pois bem: fiquei impressionado com o número de pessoas que vi nas mesmas condições. Por que? Porque passei a reparar! Quero dizer com isso, que se não vivenciarmos ou estivermos distantes dessa realidade, certamente virão comentários desqualificando o nosso sentir. Em vista disso é preciso tratar do tema racial sim, até que sejam, como disse, pelo menos, minimizados. Seria muito melhor se condutas fossem adotadas em razão da solidariedade e empatia e não pela dor ou por obrigação legal.

Respeitar o próximo; colocar-se no lugar da pessoa; dar oportunidade em igualdade de condições; são recomendações simples, fáceis, práticas e de efeitos imediatos, todavia, lamentavelmente, o que vimos é bem o contrário disso, parece que as pessoas tem mais prazer em dificultar, humilhar, excluir, impedir apenas e tão somente, por que diante de pessoas ou casos diferentes.
EGINALDO MARCOS HONORIO é advogado e membro do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Jundiaí – eginaldo.honorio@gmail.com

Eginaldo Marcos Honorio


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