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Eginaldo Honorio: Lugar e direito de fala

Eginaldo Honorio | 14/02/2020 | 07:00

De há muito venho observando muitas pessoas falando, discutindo, pregando, legislando e vociferando sobre coisas ou fatos muito diferentes e distantes da realidade. Se não bastasse essa estranheza, tal comportamento faz com que se extraiam conclusões com mesmo recorte, colocando as pessoas no lugar que eles acham que deveria ser o lugar do outro, como nas recentes agressões praticadas contra jovens negros; o caso daquele rapaz aqui em Jundiaí, tido por “suspeito” pelo só fato de fotografar a natureza; e a indagação totalmente fora de propósito do jornalista sequer imaginando que o jovem negro poderia ser atleta de elite do clube paulistano.

Em pleno Século 21, os negros são obrigados a provar, a todo momento, que não são o que pensam que são e que aquele lugar não lhes pertence: imperdoável, para dizer o mínimo. Queridos leitores: lembram do que escrevi neste espaço, da juíza de Campinas, afirmando que o bandido não tinha estereotipo de bandido porque branco? Pois bem. É bem isso e com reflexos inimagináveis contra os negros, no sentido de que são bandidos em potencial e sofrem as penas mais severas aplicadas pela Justiça; as mulheres não recebem a mesma dosagem de anestésicos quando dos partos e não podem ocupar lugar de destaque e maior relevância, quer na iniciativa privada ou pública e por ai vai.

Essa é a grande diferença entre aquele que detém o direito de fala e o que está no “lugar de fala”. Direito (ainda) todos tem. Todavia o “lugar” só cabe àquele que ocupa. Assim, somente a pessoa com deficiência pode falar de si e de suas demandas; a mulher é que pode falar de si e suas demandas; o branco, o negro, o indígena é que podem falar de si e suas demandas.

Eu, negro, particularmente não posso falar do branco, do indígena, porque não é meu mundo. Não posso falar da pessoa com deficiência porque não vivencio isso, e por aí vai. O que causa espécie é o branco falando de mim e por mim: não tem a menor chance dele sentir o que sinto, ainda que bem próximo dessa realidade.

Enquanto se discrimina, alguém está sendo beneficiado, e considerando que um grande segmento da sociedade detém e mantém os privilégios, a única forma para eliminar essa desigualdade é esse grupo “privilegiado” abrir mão dessa vantagem. Utopia.

Qual a proposta? Uma delas é a desmistificação, posto que, no mais das vezes. o outro nem quer ouvir. Exemplo clássico foi encontrado nas discussões a respeito da implementação da lei que obriga o ensino da história da África e Indígena, onde muitos educadores preferiram criar dificuldades para o cumprimento da referida lei.

COMENDADOR EGINALDO MARCOS HONORIO é advogado


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