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Eginaldo Honorio: Meu bisavô não tinha alma?

EGINALDO MARCOS HONORIO | 31/08/2018 | 04:50

Como assim? Meu bisavô não tinha alma? Ele foi capturado da Mãe África, onde vivia com os seus, trazido para o Brasil em condições desumanas, sob alegação de que nem alma tinha e, por assim ser, era possível fazer dele o que a imaginação permitia! Aqui chegando passou a integrar outro grupo/família, de outra região de África, com outra cultura, tradição, histórico, religião… Exatamente para que não pudesse se entender/comunicar.

Muitos cometeram suicídio já na travessia do Atlântico, outros por melancolia (banzo), maus tratos, doenças, greves de fome e tudo mais, contra as atrocidades que lhes eram impingidas e toda sorte de humilhação imposta por aqueles que tinham alma e praticavam essas maldades em nome da fé e no interesse em ocupar o nosso território.

Ao construir o Nosso Brasil, foram submetidos a trabalhos forçados, iniciando no alvorecer, e retornavam ao cair da noite com alimentação precária, sem ferramental apropriado, castigos etc. Muitos deles tinham o dever de serem “reprodutores”, tanto que cada mulher tinha que entregar ao seu dono pelo menos 15 filhos, engravidando já aos 13 ou 14 anos. A crueldade era tanta que os que não eram “reprodutores” eram castrados; quando não humilhados, sofrendo abusos sexuais em público a título de zombaria. As mulheres, por sua vez, serviam sexualmente a seus donos e aos filhos dele… E meu bisavô é que não tinha alma, né?

Confesso que toda vez que toco nesse assunto tenho que parar por alguns minutos, tomar uns goles d’água e respirar fundo para não me derreter em lágrimas ou ira, diante de tanta maldade que me levam a indagar: “Como foi e ainda é possível um ser humano praticar tanta maldade contra um semelhante”? O que mudou de lá para cá?

Praticamente o calendário, pois a Medicina não trata, o judiciário condena, a escola exclui e a sociedade discrimina. O Brasil é racista e confessa a existência institucionalizada das desigualdades (artigo 3º da Constituição Federal). Os parlamentares não produzem políticas públicas para combater tudo isso; o Executivo não implementa políticas existentes e a Justiça não as faz cumprir. A religião ataca, o mercado de trabalho não oferece oportunidade, a mídia incita o ódio e a discriminação etc. E eram os nossos ancestrais que não tinham alma, né?

Recentemente, em um estabelecimento de ensino local, captaram – e foram amplamente divulgadas – imagens de alunos praticando atos de ódio racial e terreiros foram apedrejados e incendiados. Como assim? Em pleno século 21? De onde tiram essas ideias?

O que se faz no combate e/ou não-proliferação desse comportamento? Qual a razão lógica desse ódio gratuito, lembrando que os negros nunca agiram contra os não-negros? Os negros não cometeram atrocidades contra os não-negros. Por quê? A preocupação permanece porque, ao nos depararmos com esses fatos, muitos se revoltam, demonstram indignação e solidariedade. Todavia, não passa disso, posto que nada é, efetivamente, realizado para não só evitar mas responsabilizar exemplarmente tais atitudes. E meu bisavô é que não tinha alma, né?

Apesar desse desabafo, a verdade é de rigor. Mudanças chegaram, todavia de forma muito tímida, certamente em decorrência do desarranjo familiar imposto na escravidão, com reflexos até os dias atuais, e da não oferta de oportunidades em condições de igualdade.

EGINALDO MARCOS HONORIO é advogado e membro do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Jundiaí – eginaldo.honorio@gmail.com

Eginaldo Marcos Honorio


Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/eginaldo-honorio-meu-bisavo-nao-tinha-alma/
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