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Eginaldo Honorio: Novembro, mês da Consciência Negra

EGINALDO MARCOS HONORIO | 09/11/2018 | 07:30

Com absoluto respeito aos que me acompanham e me abordam nas ruas a respeito dos temas aqui apresentados, nesse momento sou obrigado a retomar esse assunto. Sou militante há muito tempo e em vista das atividades desenvolvidas fui convidado a assumir a primeira presidência do Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra de Jundiaí. Na solenidade de lançamento da criação desse Conselho, realizada no ano de 2000, nas dependências do Clube 28 de Setembro, uma pessoa, bastante “chegada” por sinal, sem titubeios perguntou: “Por que Conselho da Comunidade Negra?”

Em resposta afirmei que se criou esse Conselho tal qual o da criança e do adolescente, do idoso, da mulher e outros pelo fato de que, tais segmentos, experimentam dificuldades de igual monta. Chegamos a novembro de 2018, apesar dos tímidos avanços, ainda deparamos com pessoas com indagação semelhante: “Por que Consciência Negra?” A resposta evidentemente é a mesma: “Porque o segmento experimenta dificuldades de toda espécie”. Apesar do tema vir abordado por toda a mídia (TV, rádio, jornal, internet etc) ainda temos que enfrentar questionamentos dessa ordem, o que, ao menos para mim, leva a conclusão da falta de conhecimento e/ou distanciamento da realidade, inclusive, por aqueles que integram a comunidade negra, razão pela qual se provoca a reflexão.

Não se exige muito esforço, pois todos os dias a imprensa apresenta ofensas raciais, violência de cunho racista, tratamento diferenciado pelos organismos públicos aos afrodescendentes; a dificuldades de acesso aos bens da vida tais como emprego em igualdade de oportunidades, atendimento no comércio e não se trata de ”vitimismo”, todavia, efetiva realidade. Ainda que se busquem plausibilidade nas respostas, não se pode perder de vista que o tráfico de gentes (também conhecido por holocausto africano) foi muito bem estruturado, notadamente no Brasil, onde o maior número de africanos aportou, vindo de vários países (Nigéria, Tanzânia, Moçambique), com cultura, tradições, alimentação, religião, idioma etc.

E, quando aqui chegaram, passaram a integrar grupos de famílias, as quais em vista das diferenças não podiam se comunicar, para que sem se entenderem, não se rebelariam.  A partir da abolição – muitos ainda não sabem – os recém libertos não podiam frequentar escolas, pois eram tido por portadores de doenças infectocontagiosas; superada essa fase, a educação regular era (e ainda é) dada com forte traços europeus e o mesmo material didático-pedagógico é oferecido ao não-negros e aos negros com toda a carga de negatividade. Assim os brancos absorvem todo pensamento negativo atribuído aos negros e esses assimilam a mesma impressão, razão pela qual não são unidos até os dias que correm.

Os negros são muito diferentes, desde os tons de pele até compleição física cujos requisitos, se rastreados, poderão indicar suas origens. Esses são alguns aspectos da “consciência negra”, muito rebatida, em especial pelos não negros, que, vez ou outra, indagam o por quê da “consciência negra” exatamente em razão da distância dessa realidade, que só quem efetivamente experimenta sabe e pode avaliar.

EGINALDO MARCOS HONORIO é advogado e membro do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Jundiaí – eginaldo.honorio@gmail.com

Eginaldo Marcos Honorio


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