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Eginaldo Honorio: Ponto de vista

EGINALDO MARCOS HONORIO | 26/04/2019 | 07:30

Por enquanto vivemos em uma Democracia e ainda podemos expressar nossos pontos de vista. Poder manifestar pensamento é muito salutar e nos ajuda a evitar equívocos e injustiças. É importante não esquecer da diferença que existe entre “ponto de vista” de “vista de um ponto”. Aos que insistem em manter “vista de um ponto” o risco é enorme posto que, invariavelmente, tais pessoas sequer admitem ouvir pensamentos com outro foco.
Nessa toada retomo aqui o fato daquela juíza da cidade de Campinas, que ao condenar um criminoso perigoso chegou a fazer constar da sentença que o sujeito não tinha estereotipo de bandido porque de pele, cabelos e olhos claros. Notem que a partir dessa conclusão discriminou todos que fossem diferentes desse desenho. Observem que o que levou a pensar dessa forma, nos leva a crer que integra o grupo de pessoas que só “vista de um ponto” e preconceituosa ao aludir que pessoas com aparência diferente do criminoso são “bandidos” por natureza. O absurdo em que essa juíza incorreu, deflagrou polêmica de grande vulto e o caso chegou a conhecimento da Corregedoria Geral de Justiça a qual concluiu pela ausência de ofensa ou excesso de linguagem o que, até era esperado, em razão do corporativismo que impera e, instintivamente, os iguais se protegem.
Esse tipo de posicionamento é muito perigoso e impede a busca pela eliminação das desigualdades e permite o prosseguimento de ofensas a dignidade da pessoa humana e tanto que o Departamento de Antropologia da USP apontou que, por exemplo, pessoas são tratadas de forma injustificada e absurdamente de modos diferentes, apenas e tão somente, por serem diferentes. Exemplo: um homem negro e um branco, praticando mesmo tipo de crime em idênticas condições, o negro sofre pena mais severa que o não negro. Como disse linhas atrás, os “iguais de protegem”; a mulher negra e a branca – ao parirem – recebem dosagem diferente de anestésicos; as mulheres negras são menos tocadas pelos médicos nos exames clínicos de rotina; os homens negros, em qualquer circunstância, são mais abordados pela policia; a definição encontrada no dicionário define e compara “negro” com tudo que não é bom; o mercado de trabalho não oferece oportunidade em igualdade de condições e por ai vai. A lista é gigantesca das diferenças. Basta analisar sob essa ótica.
Essa abordagem nos remete a pratica da EMPATIA (capacidade de se colocar no lugar do outro). Ao praticar empatia, muitos desses maldosos fenômenos se eliminam. Aqui aproveito para perguntar: “você gostaria de viver na pele de um negro; de um cadeirante; de um idoso, entre outros diferentes de você? Coloque-se no lugar e avalie a condição de cada qual. É fácil dizer que, segundo a Constituição Federal somos todos iguais em direitos e obrigações. Nessa ordem, coloque-se no lugar de uma das pessoas aqui mencionadas e diga – se tiver coragem – que o regime de cotas raciais, por exemplo, são desnecessárias; que cadeirantes reclamam sem motivo; que as mulheres são tratadas com igualdade; que os idosos são tratados com dignidade e respeito. “Existem apenas duas classes sociais, a dos que não comem e a dos que não dormem com medo da revolução dos que não comem” (Milton Santos)

EGINALDO MARCOS HONORIO é advogado e membro do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Jundiaí – eginaldo.honorio@gmail.com

Eginaldo Marcos Honorio


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