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Eginaldo Honório: Provérbio africano

EGINALDO MARCOS HONORIO | 03/08/2018 | 05:30

Há um provérbio africano que diz: “Quebre suas correntes e encontrarás a liberdade. Corte suas raízes e você morre”. É bem isso que vivemos, notadamente no que diz respeito à origem do povo brasileiro, com destaque aos afrodescendentes que cortaram suas raízes. As questões da discriminação racial, das desigualdades sociais, da exclusão institucionalizada, da ausência de negros em locais estratégicos e tudo o mais tem sua origem na “europeização” da educação. Isso fez e faz com que toda uma história, cultura, tradições, feitos relevantes etc fossem esquecidos, gerando desunião e autoestima em pouca profusão, facilitando o domínio em sentido amplo.

Com efeito, se a grade curricular educacional abordasse a verdade tal como ela é seguramente, não viveríamos tanta exclusão, tanta maldade, tanta falta de respeito, tanta desumanidade e por aí vai. Aqui em Jundiaí não foi diferente. Com respeito aos que pensam de modo contrário, eu me reservo no direito de acreditar que os colonizadores dessa cidade foram os negros escravizados que, por exemplo, construíram a estrada de ferro.

Basta verificar que em 11 de agosto de 1872 realizou-se a primeira viagem de trem de Jundiaí a Campinas. Vejam que a primeira viagem foi concluída 16 (dezesseis) anos antesda abolição. Perguntinha básica: “Qual a origem dos trabalhadores da ferrovia”? Obviamente não eram os europeus e nem os indígenas. Nessa mesma ordem de ideia, basta visitar a Estação Ferroviária e lá encontrar uma placa com os seguintes dizeres: “Centenário da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí. A 16 de fevereiro de 1887, a esta estação terminal, na cidade de Jundiaí, de onde pôde se expandir o maior parque ferroviário do país, chegou o primeiro trem da estrada de ferro que se constituiu na mais eficiente ligação do mar com o planalto”.

A primeira viagem foi de Jundiaí a Campinas no ano de 1872 e a primeira de Santos a Jundiaí, no ano de 1887. A pergunta é a mesma. Assim sendo, a maior parte da população local era de africanos que, em sua maioria, trabalhava na ferrovia. Enquanto que os europeus, quando aqui chegaram, a estrada de ferro já existia. Outra prova da presença de negros em grande número foi a idealização do Clube 28 de Setembro, no ano de 1895 – sete anos após a abolição! Basta também imaginar: seria a “audácia extremada” de um grupo de negros criar um clube em uma cidade em que fossem minoria! Inimaginável!

Por tais razões e o distanciamento da verdade verdadeira, concluímos que não há como se conformar com o censo do IBGE indicando que os afro-jundiaienses seriam apenas 22% da população. Nesse sentido, a visão seria no sentido de, ao divulgar percentual tão baixo, não despertar interesse em desenvolver política pública direcionada a esse contingente. Matematicamente, seria melhor pensar nos 78% que nos 22%, não é mesmo?

Costumo dizer que para chegarmos a tão reduzido percentual teriam ocorrido dois fenômenos: 1º – 1/3 dos negros que trabalharam na ferrovia foi atropelado pelo trem que acabou de colocar em funcionamento; 2º – 1/3 era impotente. Com meus respeitos a todos, a todas e todes.

EGINALDO MARCOS HONORIO é advogado e membro do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Jundiaí – eginaldo.honorio@gmail.com

Eginaldo Marcos Honorio


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