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Eginaldo Honorio: Superação ou “super ação”?

EGINALDO MARCOS HONORIO | 06/07/2018 | 06:00

Nos dias de hoje, os termos “superação” e “super ação” até se confundem. O primeiro diz respeito ao ato de transpor obstáculos quase impossíveis e o outro, ato acima do que se imagina enquanto “normal”. Hoje, ainda que possa transparecer pedantismo – não se perdendo de vista o quanto esse país é excludente – tomo a liberdade de contar parte da minha trajetória. Pobre, órfão, família com 7 irmãos; aos 11 anos, fui vender legumes com um carroceiro na feira livre e nas ruas. Chegando à fase adulta, disputei a vice-prefeitura de uma cidade com mais de 400 mil habitantes!

Dia 6 de outubro de 1961, o meu pai, então funcionário dos Correios, chamado a consertar uma linha de transmissão do telégrafo em Vinhedo, resolveu levar a mim em tal viagem. Ao proceder os reparos, por indução, sua mão encostou na linha de alta tensão da antiga Light, sofrendo carga fulminante. Se não tivesse morrido pela descarga teria morrido com a queda a meus pés. Eu estava com 7 anos e presenciei praticamente tudo! Imagine: um homem saudável, forte, com 37 anos, retorna à residência na carroceria de um caminhão e deixa 5 filhos (o mais novo com 1 ano e 4 meses) e mulher com apenas 35 anos. Minha querida mãezinha, falecida em 2012, obviamente tomada por indescritível desespero, ouvindo algumas beatas, resolveu internar meu irmão mais velho e eu em um orfanato no bairro do Jabaquara (SP). Naquele lugar, passei dias horríveis, pois aquilo era um protótipo da antiga Febem, onde os meninos sofriam pela condição de órfãos, e pelo tratamento dispensado.

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Após o dito acidente, passei a não conter urina noturna (era um “mijão”). Em razão disso, passei a ocupar o dormitório dos mijões. Imaginem um dormitório de mijões em beliches. O de cima faz no de baixo, né? Óbvio! A pessoa que cuidava desse grupo obrigava todos a tomar banho frio logo de manhã. Talvez seja por isso que, apesar de pouco tecido adiposo, tenho trauma com banhos frios! Minha mãe, quando das visitas, ficava muito triste com aquela condição e até resolveu nos tirar daquele lugar.  Concluí o primário aos 11 anos e, tão logo fui aprovado em um teste praticado pelo carroceiro (Sr. Ermínio), tinha que saber pesar e calcular o fracionamento dos produtos e o troco. Eram 5 candidatos e fui aprovado. Saía as 4h e retornava as 13h quando tinha feira. Quando não, percorria as ruas vendendo frutas e legumes.

Passamos fome literalmente. Minha mãe fazia faxinas e minha irmã mais velha era empregada doméstica. Meu irmão mais velho era doente e os dois mais novos, muito novos. Só três trabalhando e com renda muito baixa, mudando de casa a todo momento porque não podíamos pagar aluguel! Em outro momento, trabalhei no clube filatélico e numismático, na rua do Rosário, esquina com a Eng. Monlevade. De manhã, lavava e polia moedas e à tarde ajudava o Sr. Orlando a exibi-las e negociá-las, bem como ao Sr. Jeronimo, que cuidava dos selos. Aos 13 anos, fui “office boy” na imobiliária Baialuna, período em que fiz curso de datilografia e de admissão ao ginásio. Aos 14, fui aprovado em concurso dos Correios para entrega de telegramas.

Com todo o respeito, só essa fase e chegando a disputar a vice-prefeitura, a convite do sempre prefeito Ibis Cruz, sem modéstia, tipifica “superação” e, por fim, não me interpretem mal. A saga continua na próxima coluna.

EGINALDO MARCOS HONORIO é advogado e membro do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Jundiaí – eginaldo.honorio@gmail.com

Eginaldo Marcos Honorio


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