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Eginaldo Honorio: Um peso e duas medidas

EGINALDO MARCOS HONORIO | 24/05/2019 | 07:30

“Quando a questão do racismo no Brasil começar a sair dos livros, artigos, dissertações e teses de pesquisadores, quando deixar de ser problema do negro para se tornar preocupação de todas as forças e instituições do país, quando sairmos da fase do belo discurso e das boas intenções sem ações correspondentes, poderá dizer então que entramos na verdadeira fase de engajamento para transformar a sociedade; estaremos saindo do pesadelo para entrar num sonho, e do sonho para entrar numa verdadeira esperança”. (MUNANGA, Kabengele. As facetas de um racismo silenciado. – Edusp. 1996. p. 218 – 219.)

Com essa mensagem inicio a minha abordagem desta semana, lembrando que venho dizendo isso há algum tempo, a ponto de ter sido interpelado várias vezes por pessoas afirmando que só falo disso! Pois é: Notem que não estou sozinho nessa luta e abordagens, vez que a necessidade nos obriga até que, efetivamente, alcancemos resultados positivos, profícuos e efetivos, uma vez que os resultados recentes deixam transparecer resultados pouco condizentes.

Houve mudanças? A resposta é positiva! Todavia, os ataques ao povo preto continuam. O fuzilamento daquela família pelo Exército, no Rio de Janeiro, contra a qual foram disparados mais de 250 tiros é prova cabal de que primeiro executa e depois interroga! Insisto ainda em mencionar a visão daquela juíza de Campinas afirmando que o meliante não tinha estereotipo de bandido porque tem pele, cabelos e olhos claros, cuja fala não deixa dúvidas quanto a análise dos autores de delitos, em sendo negros, confirmando o que o antropólogo Sérgio Adorno já havia apurado, assegurando que os negros sofrem as penas mais severas que os não negros pelo Judiciário.

Nessa ordem de ideias já restou comprovado que o negro usuário de droga é classificado por traficante e o traficante branco de usuário. No cometimento de delitos iguais, ao negro pena, ao branco medida! Já trouxe, aqui neste espaço, o absurdo do comandante da policia militar de Campinas (SP) determinando que todo jovem dirigindo automóvel na região do bairro Taquaral devia ser abordado em inegável alusão de que todo jovem negro seja bandido ou ofereça risco a sociedade. Impressionante, né?

Diante disso resta confirmado que o sistema penal, por exemplo, opera com “UM PESO E DUAS MEDIDAS”.
Por fim, o que se nota é que real e inegavelmente a discriminação racial no Brasil é vultosa, maldosa e prova estrago de alta monta, em especial no que diz respeito a avaliação das pessoas, que para condenar são os primeiros e para facilitar ou dar oportunidade os últimos se lembrados, confirmando que vivemos num injustificável ambiente de UM peso e DUAS MEDIDAS.
“A injustiça que se faz a um, é uma ameaça que se faz a todos” (Montesquieu).

EGINALDO MARCOS HONORIO é advogado e membro do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Jundiaí – eginaldo.honorio@gmail.com


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