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Eginaldo Marcos Honorio: Superação ou Super Ação “1”

EGINALDO MARCOS HONORIO | 20/07/2018 | 06:00

Continuando a minha trajetória. Trabalhando na Imobiliária Baialuna (insisto em informar o nome porque fui muito bem tratado pelos proprietários), aos finais de semana minha mãe e eu fazíamos faxina nos imóveis que acabavam de desocupar, deixando-os em condições de higiene para nova locação e, com isso, ganhávamos uns trocados para ajudar no sustento da família. Aprovado em concurso de “estafeta” (entregador de telegramas dos Correios), aos 14 anos, e em vista da óbvia dificuldade financeira, agregada ao fato de que meu sonho era ser médico (imagina: preto, pobre, sem padrinho rico, órfão…), uma das possibilidades seria integrar as Forças Armadas e a indicada era Aeronáutica.

Nesse sentido, encontrei um curso preparatório para cadetes e, sendo aprovado, tentar concluir faculdade de Medicina. Assim, entregava telegramas até 16h e, em seguida, embarcava no trem até São Paulo e ia até o bairro da Aclimação, onde o curso era realizado, retornando a Jundiaí no último trem das 23h. Chegava por volta da meia-noite e caminhava da estação de trem até o Anhangabaú, naturalmente a pé. Tudo isso com apenas 16 anos, tanto que precisava autorização do Juizado de Menores para poder viajar. Tentando facilitar um pouco, aceitei convite de minha madrinha, que morava no bairro Ipiranga, em São Paulo, para residir com ela até o concurso da Aeronáutica e, em meio tempo, procurar emprego.

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Dei até sorte. Fui contratado pela Di Cicco, onde trabalhei como “office boy” e continuava o curso. Designado o dia do concurso, sofri rompimento do duoedeno com sangramento e hemorragia, tendo sido submetido a cirurgia de úlcera no mesmo dia do concurso. Mais um sonho que se foi! Superada a fase de recuperação médica, a pedido de minha mãe, fui recontratado pela Baialuna e lá permaneci até 75, quando fui contratado pela Cia Eletroquímica Paulista (atual Akzo Nobel) como auxiliar de contabilidade.

Em tal período fui aprovado em primeira opção do vestibular para Direito. Também com muita dificuldade e, naquela época, muitas vezes, não tinha acesso às notas porque estava com a mensalidade atrasada. Não foi nada fácil, mas conclui sem a famosa “dependência” ou reprova. Na sequência, exame da OAB aprovado na primeira tentativa. Passei a advogar e, como grande parte dos recém-formados, tentei concurso público, em especial magistratura (outro sonho!). Prestei vários em São Paulo até “desconfiar” que minha não aprovação seria em razão da minha cor de pele.

Ainda que se pensem contrário, continuo com essa impressão, bastando, para tanto, verificar o reduzidíssimo número de negros na magistratura paulista. Desisti de São Paulo e tentei Mato Grosso, Goiás, Brasília e Tocantins. Nos quatro estados, não fui aprovado na avaliação geral por um ponto. Que não poderia ser outro a me convencer senão a cor da pele. Outro sonho que se foi! A vida seguiu e, com todos os percalços que me trouxe, tentei superá-los. Com fortes reconhecimentos e desempenho, ajudei a construir a primeira lei de cotas para negros do Brasil em 2002; cheguei a, inclusive, lecionar na pós-graduação em Campinas, em 2011. Recebi homenagem de uma das turmas da Guarda Municipal de Jundiaí (2008). Sem modéstia, posso me considerar pessoa realizada, pois vir de onde vim e chegar até aqui não foi nada fácil. Fecho agradecendo minha mulher Sueli Medeiros Honorio, que nunca faltou com o amparo necessário.

EGINALDO MARCOS HONORIO é advogado e membro do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Jundiaí – eginaldo.honorio@gmail.com

Eginaldo Marcos Honorio


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