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Emmett Till e Vinícius de Moraes

Fernando Bandini | 03/06/2020 | 05:05

Em agosto de 1955, Emmett Louis Till, garoto negro de 14 anos, foi torturado e assassinado por dois homens brancos, em Money, no Mississipi, sul dos Estados Unidos. Emmett, menino de Chicago, passava as férias na casa de parentes. Ele assoviou para Carolyn, jovem branca de 21 anos, em uma loja. Sequestrado pelo “noivo ofendido”, Roy Bryant, e pelo meio-irmão dele, J.W. Milan, Emmett foi espancado, mutilado, recebeu tiro na cabeça, e foi jogado num rio, com peso amarrado ao pescoço.

Descoberto o cadáver, os assassinos foram presos e levados a julgamento, mas absolvidos de forma unânime pelo júri, composto na totalidade por homens brancos. Tempos depois, os matadores receberam cachê para entrevista em que confessaram o sequestro, tortura e assassinato (eles não poderiam ser julgados novamente pelos mesmos crimes). O caso repercutiu e foi um dos estopins da luta pelos direitos civis e contra o racismo nos Estados Unidos.

Vinícius de Moraes, que havia servido como diplomata em Los Angeles, transformou a tragédia do menino num poema, posteriormente musicado, “Blues para Emmett Louis Till (o negrinho americano que ousou assoviar para uma mulher branca)”.

Dizem os versos: “Os assassinos de Emmett/Chegaram sem avisar/Mascando cacos de vidro/Com suas caras de cal/Os assassinos de Emmett/Entraram sem dizer nada/Com seu hálito de couro/E seus olhos de punhal/Os assassinos de Emmett/Quando o viram ajoelhado/descarregaram-lhe em cima/O fogo de suas armas/Enquanto contendo o orgasmo/A mulher faz um guisado/Para esperar o marido/Que a seu mando foi vingá-la”. Entre todos os versos, ecoa o refrão “PoorMammaTill” [“pobre mamãe Till”], em referência a MamieTill Bradley, mãe do garoto. Ela não aceitou o enterro no Mississipi, levou o corpo para Chicago e exigiu caixão aberto, para que todos vissem a brutalidade a que seu filho foi submetido. Mãe e filho tornaram-se símbolos contra a discriminação racial e a intolerância.

Em 2007, aos 72 anos, Carolyn admitiu em entrevista – diferente do que dissera no julgamento – que o rapaz não a ameaçara nem avançara sobre ela, mas que havia assoviado ao sair da loja depois de comprar chicletes. O talento de Vinícius trouxe para nossa cultura um episódio que está longe de desfecho feliz. E cujos temas, violência, injustiça e racismo, andam juntos e, infelizmente, também fazem parte da nossa história.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio.


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