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Ennio e João

MARGARETH ARILHA | 08/07/2020 | 05:25

Ennio Morricone, você se foi e eu te agradeço. Agradeço-te em nome de meu mundo e do mundo que te admirou e viveu tua música, teu esplendor. Criação contínua, pura, de incrível poesia, romanceou cada fragmento de alma que atingiu.

Diverso em ritmos e figuras, trazia a cena em cada nota emitida e narrava em palavras e frases musicais o amor, a descoberta, o desamparo, o desafio, a solidão, a ternura, a esperança. Falou sempre daquilo que sempre nos faltou, com uma dor terna, com a doce certeza de que a vida simplesmente é como é, um não saber sem fim.
Lugar da clara transparência, nossas vidas caíam. A minha sempre se desenhou em emoção sem fim ao te ouvir. Um certo apaziguamento fazia renascer algo de esperança. Algo assim como a possibilidade da transformação da dor desses tempos. Uma certa esperança de que se trata apenas do fluxo da vida, que o vai e vem vai nos trazer de novo outras cores.

Assim, como é certo que “Ennio Morricone está morto”. Palavras plenas e claras. Assim deixou preparado. Suas mãos produzindo até o último minuto. Criando até suas últimas palavras, seu epitáfio, sem desassossego. A certeza de que tudo vai estar aí e que ao mesmo tempo seguirá. Sem desassossego. Um grande compositor, arranjador e maestro italiano, nascido em 10 de novembro de 1928. Iniciando com seu trompete em bandas de jazz, foi construindo seu caminho e arrastando seu tom em Hollywood, compondo para artistas como Quentin Tarantino, Bernardo Bertollucci, Roman Polanski entre outros.

Cinema Paradiso ficará como a joia que me encantará para sempre. Ah, mas você também se foi, João. Dedico o som de Morricone a todas as mulheres, esposas, mães e irmãs, filhas e filhos, que estão perdendo seus homens nessa triste epidemia. Estão perdendo esses senhores mais velhos, seus avós, seus pais, seus tios, esses senhores que se fizeram presentes e que seguramente estão deixando vazios muitos ombros.

Um enigma, uma interrogação diante das mortes que estão ocorrendo e que se apresentam sob a forma de dores lacradas em caixões lacrados, sem poder existir um último adeus, um último olhar. Para você, João, amigo que se foi, e nos deixou assim com a alma chorando a vida Paradiso, sem saber como ficar sem o seu riso debochado, dizendo: ai ai papai, tudo tem jeito, só não tem pra morte. Sigam, anjos do bem, Ennio e João, e nos protejam para sempre.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo) da Unicamp.


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