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Espaço do Cidadão – 01/12/2018

LEITOR | 01/12/2018 | 04:00

ESTACIONAMENTO DE AUTOMÓVEIS, UM DILEMA INTERMINÁVEL
Considerando-se o assunto desde o início da indústria automobilística no Brasil, pode-se dizer que o problema inexistia por serem poucos os veículos e fartas as ruas. Estas eram todas públicas e disponíveis aos poucos automóveis importados. Estávamos então nos anos cinquenta quando aqui chegou a Via Anhanguera com seu tapete de asfalto, paraíso dos motoristas que sofriam nas estradas de terra quando a demanda era ir à Capital e interior. Precursora em planejamento urbano, Jundiaí pressentiu cedo a presença do automóvel na vida familiar, e, já nos anos sessenta, introduziu nas normas a necessidade de estacionamento interno nas residências. Aparentemente precoce, a medida ajudou a liberar os espaços ao longo das calçadas ao estacionamento público. Por décadas os usos comerciais e de serviços não tiveram de pagar por ele. Esta era a intenção, pois, o desenvolvimento urbano cobrava espaços às atividades terciárias. E isto foi mantido pelos supermercados, que ofereceram à clientela o estacionamento para suas compras. Chegaram os shoppings centers com suas inúmeras lojas e serviços e, como as demais edificações, também estavam obrigadas a reservar espaços para abrigar os veículos que lhe acorrem. Quase sempre criaram mais vagas do que as obrigatórias, mas diferentemente das precedentes, cobram pelo estacionamento de todas as vagas. Embora difícil precisar quando começaram, as prefeituras adotaram as conhecidas “zonas azuis” com a intenção de regular o uso público, e passaram a cobrar pelos estacionamentos ao longo das calçadas. Com tal medida tornou inviável a exigência de serem gratuitas as vagas nos grandes centros, ao menos as obrigatórias conforme normas. A forte demanda por vagas está induzindo à busca de outras áreas, deformando as ocupações existentes. As regras criteriosas de outrora da SMT para racionalizar os usos estão sucumbindo, e novas tentativas estão surgindo, agora envolvendo os recuos das edificações. A quantidade de vagas até pode até ser maior, mas a miscelânea também o será. O resultado é que a vaga dentro do imóvel acaba por ser de uso privado, e a vaga da rua não poderá ser usada por bloquear a do recuo. Se permitida, esta fórmula acaba por transferir ao uso privado a vaga que, ao longo do passeio, era de uso público. Juntando a esta abordagem a tendência dos técnicos de privilegiarem o tráfego com maior número de faixas, inclusive as que recebem estacionamento ao longo de passeios, podemos esperar mais abandonos de edificações de comércio e serviço, e seus deslocamentos pressionando as zonas residenciais onde as ruas estão menos ocupadas. É por aí que caminha o processo de deterioração das áreas urbanas.
Antonio Panizza, e-mail: antonio.panizza@yahoo.com.br


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