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Espaço do Cidadão: 05/05/2019

ESPAÇO DO CIDADÃO | 05/05/2019 | 07:30

O INTERESSE PÚBLICO
Em meados de abril, houve a informação de que a Petrobrás havia suspendido a decisão de reajustar o preço do diesel, em 5,7%, conforme noticiado no dia 11. Embora não seja atitude propriamente surpreendente, considerada a histórica influência do governo federal na referida entidade empresarial é sinal preocupante em se tratando da gestão de Bolsonaro, político eleito com base em propostas liberais no campo econômico.
A decisão de não efetuar o aumento do diesel foi, posteriormente, revista, sendo confirmado o aumento do valor do mencionado combustível em 4,84% no dia 17 de abril. A mensagem passada para o mercado, porém, foi bastante negativa, redundando em perdas de mais de 32 bilhões de reais para a Petrobrás na Bovespa no dia 12. A imagem de que o governo federal fomenta o livre mercado, evitando a intervenção estatal, ficou maculada após tal imbróglio, reforçando a sensação dos investidores quanto à dissonância entre o que é verbalizado e a real intenção liberalizante de Bolsonaro. A interferência do governo na estipulação de preço dos combustíveis reaviva a memória da força do corporativismo no jogo político brasileiro. Os caminhoneiros, que já haviam feito uma paralisação de dez dias em 2018 com efeitos devastadores sobre a economia, fizeram chegar ao governo as manifestações de insatisfação da categoria com o aumento no diesel, com ameaça de movimento semelhante ao do ano passado pelas estradas do país. A sociedade, mais uma vez, foi colocada na posição de refém dos interesses da classe cujos serviços são fundamentais para o desenvolvimento saudável das relações produtivas brasileiras. A dependência nacional quanto ao trabalho dos caminhoneiros demonstra a deficiência do Brasil em termos de infraestrutura, pois houve investimento massivo no transporte rodoviário, em detrimento dos modais ferroviário e aquático. É possível vislumbrar, ainda, intervenção nociva do Estado à medida que facilitou, em governos anteriores, o financiamento para a compra de caminhões sem que o mercado estivesse devidamente aquecido de modo a propiciar fretes condizentes com as necessidades dos caminhoneiros. Todos os ingredientes estão presentes para compor a receita de uma situação explosiva: endividamento dos profissionais, alto custo para a prestação de serviços, dependência nacional quanto a um tipo de transporte, necessidade de afirmação política do governo federal. A probabilidade de que o interesse público seja colocado à margem em favor de interesses corporativos é, novamente, bastante grande. Já é passada a hora de refletir sobre o capitalismo de Estado implementado no Brasil e fazer com que a mão pesada do Leviatã nacional seja recolhida do mercado.
Elton Duarte Batalha

ESPACO DO CIDADAO


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