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Espaço do cidadão – 07 de março de 2018

OPINIÃO DOS LEITORES | 07/03/2018 | 05:40

NÃO SE PODE APAGAR A HISTÓRIA: O ANTISSEMITISMO NA POLÔNIA: A primeira vez que visitei a Polônia foi em 2007. Estava junto a um grupo de estudantes da comunidade judaica do Brasil, em específico de São Paulo. Era perceptível o clima não simpático para com a nossa presença e os próprios seguranças que acompanhavam nosso grupo, pessoas do país, nos alertaram sobre andar sozinho na região, que havia um olhar de certa antipatia à presença de judeus. Na ocasião, visitávamos os guetos de Varsóvia e os campos da Segunda Guerra Mundial espalhados em solo polonês e sentíamos o desafeto da parte de alguns poloneses. Recentemente, o Parlamento Polonês sancionou uma lei que criminaliza a afirmação de que a Polônia foi responsável pelos campos de concentração que assassinaram 6 milhões de judeus, e em especial em campos poloneses, em que dados apontam para três milhões assassinados nesses locais. A posição do governo atual é dizer que o país não foi espectador complacente do nazismo e tão pouco cúmplice da matança que chocou o mundo pela crueldade e pela quantidade de seres humanos que perderam a vida, isentando-os do holocausto. Mas como apagar um fato histórico?

A verdade é que os fatos, a história e a memória não podem ser apagados por um simples decreto que poderá ser sancionado pelo presidente da Polônia. É audaciosa e lamentável essa iniciativa do governo polonês, que contraria um episódio histórico de extrema relevância. Pode até ser que o país não tenha apoiado o nazismo, mas a própria história mostra que a relação de antissemitismo é um fenômeno independente na região. Isso porque, em 4 de julho de 1946, ocorreu na cidade de Kielce, na Polônia, mais um Pogrom. Segundo registros, a população civil do local apedrejou e depredou a sede da comunidade judaica na região. Além disso, 42 judeus foram massacrados e mais de 100 foram feridos no triste episódio. Esse fato é importante para o debate sobre a lei sancionada pelo governo polonês, já que mostra que um caso de antissemitismo ocorreu praticamente um ano depois do fim da Segunda Guerra, em um momento em que não havia mais nazismo e a Alemanha não ocupava mais o país. A verdade histórica é que a Polônia quer se livrar de uma herança maldita da guerra e do Holocausto. Esse episódio do governo polonês trata-se de um revisionismo na história, tendo como alvo os judeus. Essa lei que criminaliza e condena quem afirmar que o país foi responsável pelos campos de concentração mostra que o antissemitismo ainda está vivo na Europa.

Samy Pinto – rabino


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