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Espaço do Cidadão – 07/10/2018

LEITOR | 07/10/2018 | 04:00

INGOVERNABILIDADE À VISTA: “Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez o rio já não é o mesmo, tampouco o homem”. Nada mais adequado de que o conhecido pensamento de Heráclito de Éfeso (535 a.C. a 475 a.C) para lembrar ao candidato do PT à presidência da República, Fernando Haddad, de que os bons tempos do primeiro mandato do presidente Lula (2002-2006) não voltarão. As águas do rio, hoje, são bem diferentes. A felicidade que promete ao povo não passa de mais uma quimera.

O país ainda sofre os efeitos da maior recessão econômica de sua história, fruto do desgoverno da ex-presidente Dilma. Lembrando um pouco: o desemprego subiu de 5,3% para 11,5% (12,3 milhões), a inflação saltou de 5,9% para 9,28%, o PIB partiu de um crescimento de 7,53% ao ano para uma retração de 3,9% ao ano, a dívida interna aumentou em mais de 70% e algumas das maiores empresas tiveram perda expressiva de valor de mercado, como a Vale, com queda de 63,45% no valor da ação, e a Petrobras, com recuo de 55,85% na cotação do papel.

Em vez de garantir que o Brasil pode “voltar a ser feliz”, o ex-prefeito de São Paulo deveria dizer, caso eleito, como governaria um país dividido entre “nós e eles”, a ala do PT com seus mocinhos e a ala dos adversários povoada de bandidos. Pelo que se conhece, a ala que prega a dualidade é majoritária na sigla. E não abandonará a oportunidade para dar o troco nos “golpistas”, como chama todos aqueles que aprovaram o impeachment de Rousseff.

Da mesma forma, o capitão Jair Bolsonaro, candidato do PSL à presidência, deveria tentar mostrar como governaria um país rachado ao meio sob a sombra de uma identidade profundamente impregnada de conservadorismo e de uma história pontilhada de manifestações de racismo, homofobia e misoginia. Mais: que papel terão as Forças Armadas em seu governo, sabendo-se da defesa que faz dos anos de chumbo e do aceno a militares, com os quais quer compartilhar a administração.

O fato é que a ingovernabilidade paira sobre o próximo ciclo governamental, qual seja o vitorioso, um dos dois, como é mais provável. O Brasil é muito diferente do território governado por Lula, a partir de 2002. As condições internacionais são também bem diferentes. E, como se sabe, a governabilidade de uma nação é também resultante da geopolítica mundial, principalmente nesse ciclo de contundentes batalhas comerciais e teias protecionistas, envolvendo Estados Unidos, China e países europeus. Se o PT voltar ao centro do poder, com Haddad na cadeira presidencial, abrirá largas fissuras nas alas que abriga, a partir dos componentes “duros” do partido, como a presidente Gleisi Hoffman. Haddad ou Bolsonaro, cada qual a seu modo, terá de enfrentar o desafio: unir as bandas de um país conflagrado por bílis, ódio e desejo de vingança.
Gaudêncio Torquato – jornalista e professor


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