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Espaço do Cidadão – 11/05/2019

ESPAÇO DO CIDADÃO | 11/05/2019 | 04:00

SER MÃE É COMO MUDAR PARA UM PAÍS QUE É LINDO, MAS ESTÁ ENVOLVIDO EM UMA GUERRA!
A experiência de ter um filho é um verdadeiro idílio, correto? Uma história maravilhosa que começa com a descoberta da gravidez; a futura mãe se emociona e prepara sapatinhos de bebê para surpreender o pai. O parto humanizado – a escolha certa para essa trajetória de encantamento –, contará com uma emocionante sessão de fotos. Por fim, o cotidiano da maternidade traz a certeza de que a amamentação é um processo natural e fácil; a rápida adaptação do bebê à casa; a transformação tranquila de um casal para uma linda família. Um conto de fadas. Longe disso! A boa notícia é que as mulheres do mundo inteiro estão tirando as mordaças para falar honestamente sobre os desafios da maternidade. Essas “novas” mães se recusam a perpetuar essa imagem de perfeição. Uma porta-voz dessa revolução é a jornalista Meaghan O’Connell, autora do livro “Embaraçada”.
Com a autoridade de quem viveu uma realidade muito distante dessa idealização social da maternidade, Meaghan traz um diário honesto e sagaz sobre os desafios que pontuaram toda a trajetória da gestação, passando pela romantização do parto natural que corrói a autoestima materna, os problemas com o sexo, a aceitação das transformações do corpo no pós-parto e a fascinante estranheza de adotar uma nova identidade para a qual não se sente confortável. Aos 29 anos, planejando o casamento, Meaghan se descobre grávida. A partir desse momento, uma enxurrada de emoções – nem sempre são boas, nobres ou o que se espera de uma grávida. Trata-se de um livro que lança um novo olhar para um velho tema. Por que insistimos em falar somente sobre o “lado A” da experiência de dar à luz? Ocorre que estamos conectadas com algumas reflexões singulares do feminismo do século XXI – sobretudo do papel das mulheres no processo de apoiar outras mulheres, incentivando-as a expor todos os lados da vivência. Sororidade implica na empatia e na busca por representatividade. E Meaghan representa uma legião de jovens mães que – a despeito de todo o romantismo e idealização em torno da maternidade – se depara com a realidade: a dúvida, a tristeza, a sensação de não estar pronta, a dor física e emocional, o medo da morte do bebê, a incompreensão do marido… uma lista infindável.
Mas, o que isso quer dizer? Que a nova geração de mulheres não consegue lidar mais com algo tão simples quando parir? Que absurdo! Quer dizer, apenas, que as mulheres têm direito de reagir, cada uma a seu modo, diante de experiências profundamente transformadoras. Acredito que o autoconhecimento é peça fundamental para essa liberdade de abordar temas que durante muitos anos foram proibidos. Falar sobre maternidade do ponto de vista dos males? Parecia inimaginável há alguns anos.
Lu Magalhães

ESPACO DO CIDADAO


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