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Espaço do Cidadão – 14/07/2019

ESPAÇO DO CIDADÃO | 14/07/2019 | 04:00

TERRIVELMENTE EVANGÉLICO
Os eleitores e admiradores do Presidente Bolsonaro já se habituaram aos pronunciamentos entusiasmados e até patéticos, em momentos imprevisíveis. Um destes seria a recente afirmação de que indicará dois ministros para o Supremo Tribunal Federal. E um deles será “terrivelmente evangélico”! Tudo bem quanto à profissão de Fé do magistrado, mas ficamos espantados com a conotação “terrível”. Teria o mesmo sentido das guerras de religião, em que os cavaleiros medievais atacavam ou eram atacados pelos mouros, nas montanhas e desertos? Ou teria o presidente rememorado o Latim litúrgico, utilizado no Introito da Missa celebrada para a consagração de um templo, especialmente um Santuário ou Catedral: “Terribilis locus est iste, Domus Dei et Porta Coeli” (este é um lugar terrível, a Casa de Deus e Porta do Ceu”!)

Sob esse ponto de vista, cai bem a ideia de “terribilidade”, ligada ao sentido sagrado do Templo situado entre os fiéis do Povo de Deus (Êxodo, 28,5). Contudo, a expressão qualifica ainda melhor um magistrado que seja fiel à Palavra do Senhor e ao povo que representa, identificando-se com aquele entusiasmo que ardia nos propósitos e ações dos santos.

Certamente, Bolsonaro não tencionou igualar o espírito evangélico ao dos reis e príncipes que utilizaram a Fé como alimento de suas ambições. A virada espiritual da Fé apontada pelas teses de Lutero na Porta da Igreja do Castelo, em Wittenberg, no ano de 1517, foi um brado de alerta, justamente, contra desmandos e abusos na exploração de um povo carente pelos cardeais romanos e seus nobres. Na raiz da Reforma luterana cresceu o espírito evangélico. Houve quem utilizasse o argumento eclesiástico para ataques a rivais políticos, príncipes e seus assessores. Uma das curiosidades que se pode observar, por exemplo, no castelo de Heidelberg, é a sucessiva passagem, por ali, de soberanos calvinistas e de outros matizes protestantes, todos empenhados em prevalecer sobre seus antecessores.

Antagonismos desse tipo seriam justamente considerados “terríveis”. Todavia, não é esse, por certo, o escopo da pretensão divulgada pelo presidente. Com toda a certeza, o Evangelho norteador da ideologia e conduta desse magistrado será condizente e justo com a Lei e a Ordem, dentro da Palavra cristã, nas dimensões de Justiça e Fraternidade exercidas de forma equânime e verdadeira. E delas temos, ainda, terrível e imediata necessidade!
Antônio Luiz Gomes


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