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Espaço do Cidadão – 19/06/2019

ESPAÇO DO CIDADÃO | 19/06/2019 | 04:00

PERSUADIDOS DA PRÓPRIA CAUSA
Em humanos e animais, a capacidade de pensar é tema muito estudado. Charles Darwin – não é por acaso que algumas pessoas marcam a História – estudou, entre outros, o “pensamento” das minhocas.

Darwin colocava papéis recortados em forma de cunha próximo às tocas desses anelídeos. Bem, eles escolhiam conduzir os papéis ao interior da toca pela ponta aguda, facilitando seu ingresso nos buracos.

Há, pois, “inteligência” incipiente nas minhocas. Mas, haveria pensamento? O Houaiss define pensamento como a “faculdade que tem como objetivo o conhecimento”. Não concordo com “tem por objetivo”.

Pensamento é propriedade característica de alguns organismos. As faculdades de um organismo não possuem finalidade intrínseca. Admitir finalidade é compreender os organismos como criação.

Pelos milênios de evolução, restamos com certos atributos, entre os quais está o pensar. Pensar, pois, é uma característica final (restamos com ela), não é um projeto inicial (desenho com objetivo).

Da minhoca ao cachorro. Cachorro pensa? Alguns estudos afirmam que sim. Eles sabem, mas não sabem que sabem. Pensam rudimentarmente e não conseguem pensar sobre o próprio pensamento.

Os mamíferos “inteligentes” têm emoções básicas: amor, saudade, satisfação, medo, asco, alegria, raiva, susto. Esses animais não possuem os sentimentos morais: culpa, orgulho, desprezo, vergonha.

O pensamento humano não é “puro”, mas valorado. Não é denotado, mas conotado. Contém subjetividades e é emocionado. Carrega nossas convicções. Não conseguimos ter um pensamento neutro.

Descartes (1596 – 1650) propôs que suspeitemos de tudo o que pensemos. Ele desconfiou até da própria existência. Concluiu que existia porque, afinal, pensava: “Penso, logo existo”.

Espinosa (1632 – 1677) foi o primeiro filósofo a avisar de que corpo e mente são coisas inseparáveis: o corpo pensa. Propunha uma ética demonstrada e que fôssemos racionais para escolher a “melhor vida”.

Afrontou a superstição e a metafísica. Arrostou as verdades religiosas. Não acreditava em livre-arbítrio. O presente sempre seria advindo de causas anteriores sobre as quais não incidimos.

Saberes distintos do meu, portanto, não são, a priori, certos ou errados. Ao avaliar com desdém outros pensamentos, demonstro afetos ruins. Não me elucido; não me alegro; não aprendo.
Léo Rosa de Andrade – Doutor em Direito


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