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Espaço do Cidadão – 19/07/2019

ESPAÇO DO CIDADÃO | 19/07/2019 | 04:00

PARATY É AQUI!
Não estive na Feira Literária de Paraty. Teria de ouvir pronúncias desagradáveis de energúmenos esquerdistas. Mesmo assim, o enfoque na obra e na personalidade de Euclides da Cunha compensariam o sacrifício. Sem dúvida, alguns torceriam para o aspecto socialista da tragédia envolvendo Antônio Conselheiro, seus sequazes e os apuros do governo federal, nos primeiros anos da República. Relatos mais recentes dão conta de que o tema será objeto de mais um filme dirigido pelo Marcelo Gomes, que já nos apresentou um excelente “Cinema, Aspirinas e Urubus”. A trilogia desenvolvida na obra de Euclides da Cunha, o repórter do “Estado de São Paulo” enviado ao sertão baiano para cobrir a epopeia, orienta um sentido geográfico, místico, fanático, crítico da desordenada repressão dos governos e do fanatismo religioso, comum a tantos outros fatos ocorridos, como a famosa seita do Ferrabraz, no Morro de Dois Irmãos, próximo a Porto Alegre, ainda no período imperial.

As notícias publicadas, referentes à atual Flip, não parecem ter conhecimento ou embasamento em fontes intimamente ligadas a Jundiaí e cidades próximas. Refiro-me à “Enciclopédia de Estudos Euclidianos”, da Editora Jundiá, organizada e ilustrada pelos professores Adelino Brandão e Elvio Santiago. Com a primeira publicação em 1982, a figura de Antônio Conselheiro, magistralmente colocada pelo saudoso Geraldo Tomanik, e objeto de alentadas pesquisas do grupo que, anualmente, se reunia para estudar “Os Sertões” e fazia de São José do Rio Pardo uma Meca do “euclidianismo”. Muito antes de Paraty, já contávamos com Adelino Brandão, Aldo Cipolato, Amélia Trevisan, Honório de Sylos, Marcio José Lauria, Moisés Gicovate, e muitos outros, tecendo os fios históricos e as intrigas jornalísticas que enredaram a magistral obra de Euclides da Cunha.

E o trágico desfecho da carreira do jornalista, envolto nas tramas do ciúme e da traição, que ensejaram uma novela global e a excelente produção assinada pelo Prof. Adelino Brandão, com os depoimentos de Joel Bicalho Tostes, no livro “Águas de Amargura”? Não recebi notícias dos depoimentos em Paraty que aprofundassem os estudos sobre a infidelidade de Anna, seu romance com Dilermando de Assis, o envolvimento deste e do irmão Dinorah e todos os detalhes do que constituiu um verdadeiro relato policial.

Conheci pessoalmente, em São Paulo, Dilermando de Assis que, instado a lembrar aspectos da tragédia televisionada em “Desejo”, mostrava, em seu braço esquerdo, uma bala ali encravada, resultado do duelo que abateu Euclides. Mais do que palestras em Paraty, tudo isso parece ter sido mais estudado em Jundiaí!
Antônio Luiz Gomes


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