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Espaço do Cidadão – 21/10/2018

LEITOR | 21/10/2018 | 04:00

O VENTO NA DIREÇÃO DO CAPITÃO: Meu pai, que sabia quando ia chover só de olhar para a formação de nuvens no nascente e no poente, dizia: “Quando o vento vem numa direção, ninguém desvia seu rumo”. Costumei aplicar a pequena lição à política. Quando o vento corre na direção de um candidato, não há barreira que o detenha. Torna-se ele “a bola da vez”, o cara que tende a chegar ao pódio antes dos outros. E, aproveitando mais um ditado popular, a corrida do vento até se acelera quando alguém “cutuca a onça com vara curta”. A fera, quieta em seu canto, corre para abocanhar o caçador.

A imagem cai bem sobre a figura do capitão Jair Bolsonaro. A ventania provocada pela atmosfera eleitoral sopra na sua cara, a mostrar que mesmo sob muralhas construídas em sua passagem – acusações de discriminação contra mulheres, misoginia etc – o candidato da extrema direita está na posição de canalizador das correntes mais fortes que impulsionam o eleitorado brasileiro. Nem a onda feminina que há dias invadiu as ruas, a partir do Largo da Batata, em São Paulo, protestando contra o candidato sob o manto de um movimento batizado de “#Elenão”, deteve sua capacidade de aglutinação. Deu-se um bumerangue: Bolsonaro ganhou pontos no campo das mulheres e, ainda, cresceu em segmentos tradicionais do lulismo, como as margens pobres do Nordeste.

O que teria ocorrido? O movimento das mulheres contra Bolsonaro abrigaria um grupo majoritariamente de esquerda e de boa renda e o “cutucão com vara curta” nos costados do capitão teve o condão de despertar o sentimento antipetista, particularmente forte nos enclaves médios do Sudeste, com grande poder de capilaridade. O tom crítico de candidatos do centro contra o lulopetismo, nos últimos dias, correu pelas regiões, fazendo estragos na imagem do PT e de seu candidato Haddad. Evitar “a volta do PT ao poder” passou a ser grande estampa na paisagem eleitoral, abrindo os flancos de candidatos como Geraldo Alckmin, Marina Silva e até Ciro Gomes, que viram parcela de seus eleitores surfar na onda bolsonariana.

O fato é que a intensa polarização que racha o país denota algo inusitado: os dois líderes dos votos são também os mais rejeitados, ambos beirando 45% de rejeição. Bolsonaro veste o figurino do cara ao lado do eleitor, sujeito de cultura mediana, de linguagem simples, sem sofisticação. Haddad, por sua vez, é um emissário que pede aos eleitores pobres do Nordeste para desencavar a bolorenta foto de Lula no baú para recolocá-la na parede de suas casas, sob a lembrança do dinheirinho do Bolsa Família e da água do São Francisco. No segundo turno, os tons do discurso aumentarão de volume. Até 28 de outubro, veremos choques agudos e entreveros mais severos. Sob uma primavera muito quente.
Gaudêncio Torquato – jornalista, professor titular da USP e consultor político


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