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ESPAÇO DO CIDADÃO – 26/03

LEITOR - redacao@jj.com.br | 26/03/2018 | 04:00

‘TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME’ E O BRASIL: O filme “Três anúncios para um crime”, protagonizado por Mildred Hayes (Frances McDormand), leva a várias reflexões, algumas das quais relacionadas com o momento vivenciado pela sociedade brasileira. Ressentimento, vingança e maniqueísmo tomam conta da tela e da realidade nacional. A protagonista, após ter perdido a filha assassinada, torna-se uma pessoa sedenta de justiça, que nunca vem, dada a falta de identificação do criminoso pela polícia, representada pelo delegado Bill Willoughby (Woody Harrelson), superior hierárquico do policial Jason Dixon (Sam Rockwell). Ressentida, ela passa a buscar vingança. Em muito, tal situação pode ser observada no Brasil. A ineficácia das instituições na punição de crimes tem causado grande frustração na população brasileira que, permitindo que a paixão sobreponha-se à razão, tem pedido medidas mais duras contra a criminalidade. Nesse caminho, o respeito ao ordenamento jurídico é a linha que divide a justiça da vingança. No decurso do filme, permite-se ao espectador refletir sobre o caráter da protagonista e dos policiais, que com ela antagonizam em parte da obra. As figuras clássicas de vítima e carrasco não são tão evidentes como poderia parecer em um primeiro momento. É lição para o momento atual do Brasil, tão dividido pelo discurso raso que oblitera a complexidade da vida e busca demonizar aqueles que ousam pensar de modo diferente do interlocutor. Em qualquer democracia, o respeito à alteridade é condição inexorável. Embora o consenso seja fim a ser buscado pelos meios democráticos, não se deve olvidar que o espaço para dissenso é sua principal característica. A riqueza da obra reside especialmente na constatação da complexidade da personalidade das personagens. Opta-se por demonstrar as dificuldades e fragilidades vivenciadas por todos, especialmente por aqueles que, à primeira vista, parecem fortes. Virtudes e defeitos são tratados artisticamente sem a supervalorização ou vitimização tão típicas do discurso público nacional. Em ano eleitoral, a produção de versões sobre a realidade mais facilmente aceitáveis pela população é risco evidente para a qualidade dos representantes que deverão ser eleitos em breve. Ainda que formada por pessoas (e, portanto, falíveis), instituições como a imprensa e o Judiciário são fundamentais, respectivamente, na verificação de informações e julgamento de versões que são tornadas públicas e, nem sempre, correspondem à realidade. “Três anúncios para um crime” é uma obra marcante. Mostra que, muitas vezes, o caminho mais curto para o erro é buscar respostas simples para questões complexas. É o retrato da vida das personagens e um espelho do momento social do Brasil. Mais que um belo filme, oxalá sirva para reflexão.
Elton Duarte Batalha – advogado e professor


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