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Espaço do Cidadão 30/04/2018

LEITOR | 30/04/2018 | 05:00

QUANDO O DINHEIRO É CHAVE DE CADEIA
Ter um monte de dinheiro – algo parecido com o cofre do mítico Tio Patinhas – foi um desejo que, por décadas, povoou o imaginário dos milhares de leitores das estórias de Walt Disney. Ao contrário do ancião sovina, que guarda desde a primeira moeda ganha, todos queriam aquela fortuna para empreender e viver bem. O que os apreciadores dos quadrinhos e dos filmes do velho pato jamais imaginavam era a possibilidade de, tendo muito dinheiro vivo, sofrer dissabores e até poder ser preso, consequência cada dia mais comum, especialmente entre os políticos brasileiros.

O primeiro registro explícito de brasileiro punido por ter muito dinheiro é do ex-presidente Fernando Collor, que sofreu impeachment depois de adquirir um veículo com supostas sobras de campanha sem origem declarada e mantidas em contas bancárias registradas em nome de “laranjas”.

Depois vieram os políticos e assessores na constrangedora situação de levar dinheiro escondido na cueca, as grandes somas flagradas em aviões, ônibus e automóveis, as propinas pagas nos mensalões (o mineiro e o do PT), no petrolão e outros escândalos apurados pela Lava Jato e outras operações. E, logicamente, as malas recheadas de notas que ultimamente vêm agitado o cenário político-administrativo nacional.

Com o passar dos anos, a posse do dinheiro tornou-se impraticável. O velho hábito de esconder as economias no colchão ou em qualquer lugar da casa ou do escritório foi suplantado pela inflação alta, somada à insegurança. As notas armazenadas empiricamente perdem o seu valor de compra ou podem ser roubadas. Hoje se utiliza o banco e as transações financeiras são realizadas de forma segura, através de transferências ou cheques. Mas, para isso, os valores devem ter origem lícita. Resta, assim, a presunção de que dinheiro vivo é instrumento de bandido, porque pode ser fruto de corrupção ou de atividades criminosas.

Na medida em que a tecnologia se desenvolve, a arrecadação de tributos e o controle da produção tornam-se mais eficientes. O cruzamento de informações sobre pagadores e recebedores leva à descoberta ao controle das atividades econômicas e identificação das anormalidades e fraudes. Foi através de inconsistências em movimentações financeiras que os órgãos de controle e os investigadores descobriram a movimentação irregular de recursos para políticos custearem suas caras campanhas e, em certos casos, para o enriquecimento ilícito.

O dinheiro, outrora fonte de poder, quando não tem fonte lícita é a verdadeira “chave de cadeia”. E tem de continuar assim se quisermos, um dia, ter o país sustentável, justo e verdadeiramente desenvolvido.

Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves


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