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Esses “homens do presidente…”

GLAUCO GUMERATO RAMOS | 18/02/2020 | 05:23

Paulo Guedes é pobre! Eu disse pobre, não podre. Escrito em letra de fôrma minúscula, o “b” é um “d” com a barriga nas costas. Assemelhadas graficamente, são letras que poderiam ser consideradas irmãs. Organizadas frasicamente com alguma habilidade, as palavras pobre e podre podem gerar um divertido trava-língua.

Ser pobre significa ser desprovido do necessário, qualquer que seja o item necessário. A pobreza, circunstância daquilo que é pobre, é um estado permanente de difícil superação, onde o necessário não existe. Se existe, é rarefeito. Há vários tipos de pobreza, pois vários são os tipos de pobre: há a pobreza material, existencial, ou de espírito. Esta última independe do quão endinheirado alguém possa ser.

O ministro Paulo Guedes é daqueles “homens do presidente” que fazem questão de externar o que pensa a respeito da vida e dos brasileiros.Não é o único de Brasília a vociferar contra o semelhante diferente.

A última do ministro foi a história das domésticas da Disneylândia. Superou a penúltima: a dos parasitas representados pelos servidores públicos. Se igualou, em termos de reprovabilidade, à bravata retórica do final do ano passado, aquela de que o AI-5 seria uma boa alternativa para evitar badernas de rua contra o governo. Qual lição pode-se tirar de falas como essa das domésticas, quando ditas por alguém do primeiro escalão do governo federal? Várias, naturalmente. Mas há uma que se mostra inescondível: o preconceito. No caso, o preconceito contra o pobre.

Apesar de repugnante, o preconceito faz parte da natureza humana, não tem jeito. Cada um de nós exercita, com maior ou menor habilidade,os próprios freios inibitórios para não revelar o lado podre daquilo que nos habita. O fato é que ninguém tem o direito de sair por aí destilando seus preconceitos. Quando a vilania parte de um alto agente estatal, que depende da própria respeitabilidade para cumprir a missão pública para a qual foi chamado, a coisa toma uma dimensão execrável: revela a penúria existencial de quem assim se comporta e, claro, revela muito do próprio caráter.

Ao incluir em seu desrespeitoso discurso a classe das empregadas domésticas, Guedes não escondeu seu preconceito com uma classe ainda maior: a dos brasileiros pobres. O preconceito com o pobre talvez seja o mais invencível dos preconceitos. A pessoa pode integrar qualquer grupo das chamadas “minorias”, ma de uma forma ou de outra acaba sendo aceito se não for pobre. Sendo pobre, o bicho pega. Pobre do Paulo “pobre” Guedes, que acabará sendo vítima de preconceito. Aliás, parece que já está sendo.

GLAUCO GUMERATO RAMOS Advogado. Professor da FADIPA. Presidente para o Brasil do IPDP. Diretor de Relações Internacionais da ABDPro.


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