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Está pronto para partir?

JOSÉ RENATO NALINI | 07/06/2020 | 05:00

Depois de perder meu irmão caçula, meu pai e minha mãe, além de muitas outras pessoas queridas, resolvi estudar um pouco mais a morte. Estava atento às palavras de minha mãe. “Quando morrem nossos ascendentes, nós passamos a ocupar a linha de frente. A próxima chamada é para a nossa geração!”.

Foi assim que escrevi o livro “Pronto para Partir?”, que a editora RT, hoje Thomson Reuters, editou e reeditou.

Como em geral ninguém quer pensar na morte, acreditei que meu livro não seria lido. Afinal, somos um país em que muitos escrevem e poucos leem. Mas os poucos leitores qualificados compensaram. Meu querido confrade Maurício de Sousa elaborou até uma simpática mensagem quando do lançamento, com a morte dizendo: “gosto muito de noite de autógrafos! Principalmente quando sou a personagem do livro!”.

Recebi depois uma generosa crítica do filósofo e pensador Gilberto de Mello Kujawski, para quem “não se trata de um livro comum, em feitio de mera pesquisa acadêmica, e sim de um depoimento muito pessoal, de quem sofreu a fundo toda a dramaticidade encerrada no tema da morte, e foi pressionado intimamente a acertar as contas com a fatalidade da partida rumo ao desconhecido”.

Depois de analisar o conteúdo do livro, afirma que “nos capítulos finais, o livro, que vinha numa escala progressiva, cresce ainda mais”. Menciona as despedidas, as coisas a fazer antes de morrer, o medo da morte, o morrer em paz, enquanto a morte não vem e o depois da morte.

Para Kujawsky, “ao terminar o livro, o leitor respira uma paz interior profunda e seu efeito é espiritualmente sedativo. Ficamos depurados do medo, do pavor, da angústia e repousamos a cabeça no seio desconhecido, como a criança pequena no colo da mãe”.

Também Sebastião Nery leu o livro e, em sua coluna de 28 de junho de 2011, há quase nove anos, dizia ter fruído “um livro sábio de um sábio, o filósofo e desembargador José Renato Nalini… É o mistério da morte, enciclopédica bibliografia com citações de centenas de autores, da Grécia à USP, de Platão a Nalini”.

Dose excessiva de bondade. Mas o que importa é que, nestes tempos plúmbeos de pandemia, quem é que deixa de pensar no encontro inevitável, naquela indesejável das gentes, mas que está fazendo enorme estrago na sociedade brasileira?

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Univone e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020.


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