Opinião

Estado de sítio, de Camus


Peça escrita em 1948, “Estado de sítio” conta uma história de amor em cidade assolada por epidemia. O autor, ganhador do Nobel de Literatura, Albert Camus (pronuncia-se “camí”), adapta para os palcos o tema que desenvolvera em seu romance “A Peste”, de 1947. A pedido do ator Jean-Louis Barrault, o escritor cria a peça a partir do mesmo assunto. Mas ele não faz uma simples transposição: bola outro enredo e universo. Embora nas duas obras haja semelhanças entre personagens e cenários, a ambientação e a história mudam. O romance passa-se em Orã, na Argélia, e a peça, em Cádiz, na Espanha (em comum, espaços ensolarados à beira-mar).

Se no romance, a peste é uma doença que começa matando ratos e depois migra para os humanos, no teatro aparece um personagem chamado Peste. Ao lado de uma diligente Secretária, a Peste entra em cena para anunciar novos tempos na cidade assustada. Poderosa e cruel, ela toca o terror e impõe regras rígidas de convivência e inúmeras restrições. Qualquer relacionamento afetivo, por exemplo, está proibido. A vigilância assume contornos de onipresença, a tudo e a todos observando. Basta um gesto de desobediência, e um nome riscado no caderno da Secretária para que a vítima receba uma marca de advertência no corpo. A segunda anuncia o contágio, e a terceira, a morte.

Todos devem se submeter à nova ordem imposta por quem surgiu há tão pouco tempo e tem muita disposição para destruir qualquer resistência. Menos a do altruísta Diogo, o bom moço noivo da bela Vitória. O herói enfrenta o autoritarismo recém-chegado, a fim de não perder sua liberdade e para proteger a cidade que tanto ama. Seu embate com a Peste começa como um inconsequente gesto autodestrutivo e segue como possibilidade redentora para todos.

Alegoria da barbárie nazista que invadiu a Europa nas décadas de 1930 e 40, “Estado de sítio” denuncia o totalitarismo, sob qualquer disfarce ou coloração. Apesar da violência e asfixia, há esperança, e dela nasce a resistência. Seu preço é alto, mas o protagonista Diogo tem coragem para bancá-lo.

Como em toda grande obra, existem passagens que se eternizam. A Peste, próximo do fim da peça, diz ao combativo Diogo e a seus companheiros que eles “se cansarão ao ver a estupidez triunfar, sem combate. A crueldade revolta, mas a estupidez desanima”. Para a cena atual, o desalento pode pintar porque sobra estupidez.

Sugestão para o quebra-texto: “A crueldade revolta, mas a estupidez desanima”.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio

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