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Estou seguro que vivi

ANTONIO FERNANDES PANIZZA | 20/08/2019 | 06:00

Sem me atrever a usar o título de Neruda, “Confesso que vivi”, vou tentar pinçar algumas memórias e arriscar a fazer confrontos ao longo de sua evolução, começando pelos anos cinquenta. Nesta década o colégio e a formação profissional foram mesclados pelo serviço militar e por muito basquete com jogadores modestos e notáveis. Em todos os lugares tive companheiros de muitas procedências, e sempre encontrei convivência amigável. A vida era tranquila e a cordialidade quase unânime.

Em 1963, com a família, mudamos para a casa que nos acolheu, onde os filhos foram criados e a felicidade não deixou de estar presente. As limitações não permitiram que o mobiliário estivesse completo, mas o leiteiro e o padeiro deixavam o pão e o litro de leite (em vidro) no portão de casa, e ninguém mexia. O gradil frontal da casa era baixo e o jardim podia contar com flores e plantas que não eram molestadas. Sendo próxima à escola, a porta ficava destrancada porque, por vezes, os colegas e as colegas dos filhos saiam antes e vinham aguarda-los em nossa sala. Mais adiante, com os filhos se formando, nos carnavais a garagem e a sala inferior abrigavam um ateliê artesanal, aonde os amigos vinham cuidar de suas fantasias para si e familiares. Saímos em blocos e como alas em escola de samba nas ruas do centro da cidade, o que nos deu muita alegria. Isto aconteceu no fim dos anos setenta e começo dos oitenta.

Nessa época fomos assaltados e nos roubaram um botijão de gás. O pão e leite não mais nos deixavam no portão, nos obrigando a uma caixa no muro, com chaves aos usuários. Não demorou muito e ela foi explodida, acabando com o conforto de termos o pão e o leite em casa. Nos anos 1985 a 1994, auge da inflação no Brasil, as tentativas de roubo aumentaram impondo os gradis altos e pontudos. Ainda nos últimos anos noventa as novas casas começaram a ter trancas junto às calçadas, surgiram os loteamentos e condomínios fechados, e os estampidos da chegada da droga aumentaram a frequência.

Adentrando neste século o avanço tecnológico proliferou a informática e ofertou os telefones celulares, que chegam a todos como um novo membro indispensável. O compartilhamento entre as pessoas é estimulado, mas o isolamento nos grupos é visível. A virtualidade se sobrepõe à realidade. Não se recebe mais o pão em casa, mas sim sapatos novos sem provar comprados pelos meios eletrônicos. O botijão de gás já não interessa aos ladrões, mas sim os cabos elétricos públicos ou os bancos a custa de reféns e explosões. A vida nada mais vale pela impune criminalidade. Nos órgãos governamentais então todos os limites foram rompidos. Bancos e empresas estatais foram arrasados e no mundo político que nos governa há escassez de fichas limpas.

Não estou escrevendo aos idosos como eu, mas aos jovens para avaliarem a vida que vivi, e a comparem com hoje. Sonhando, pode até ser que metas atuais sejam revistas.

ANTONIO FERNANDES PANIZZA é arquiteto e ex-secretário de Planejamento Urbano de Jundiaí.
E- mail: antonio.fernandes@yahoo.com.br

ANTONIO FERNANDES PANIZZA
PRIMEIRO PLANO DIRETOR DE JUNDIAI


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