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Evento incomum

ANTONIO FERNANDES PANIZZA | 09/06/2020 | 07:10

Passado o intenso preparo em meio às aulas, a equipe universitária de basquete embarcou para a Europa em dezembro de 1958. Nos dias iniciais o forte temporal impediu, mas no tempo calmo o treinamento era na proa do navio. Mesmo sem tabela e cesto e com a bola murcha praticava-se táticas de jogo.

Na época as linhas aéreas eram raras e caras, e a menor autonomia de voo impunha o trajeto por Recife e Dakar. O meio possível foi o Yapeju, navio argentino de linha, classe única, que levou o time para um torneio de natal na Holanda. A seleção da FUPE, Federação Universitária Paulista de Esportes, foi convidada para o evento. Para se aprimorar, antes de embarcar a equipe fez diversos amistosos, inclusive com o All Stars que, com o famoso Globe Troters, fazia turnês pelo mundo.

Os convocados embarcaram rumo a Amsterdam, onde os jogos seriam contra alemães, americanos (das forças armadas sediadas na França) e iugoslavos, além dos anfitriões holandeses. O navio atracou em Hamburgo, onde houve treino em quadra, e a seguir chegou ao destino.

Sendo equipe universitária, a estada foi com famílias modestas e hospitaleiras, mas que no dia a dia em suas casas deixavam transparecer o peso da herança da guerra. O torneio foi bem e a FUPE ficou vice-campeã, perdendo na decisão para os americanos.

A seguir, houve um jogo amistoso em Haia, contra a seleção holandesa, e na sequência uma turnê pela Alemanha. A estada às vezes era em hotel, mas predominava apartamento estudantil. O último jogo foi em Bremen-Haven, onde todos ficaram alojados na base aeronaval dos aliados lá sediada. O farto passadio contrastava com a simplicidade que prevalecia nos demais lugares. Nas cidades, os novos prédios eram singelos e bons, mas a maior demanda da construção civil ainda era a demolição das ruínas de guerra, que eram verdadeiras feridas não cicatrizadas.

Ao fim da jornada, com uma dezena de jogos e apenas uma derrota, parte da delegação iniciou a volta para cumprir prova em seus cursos, que naquele tempo era exame oral. Afora as belezas históricas o que impressionou foi a pobreza dos espanhóis, que como os portugueses viveram longas e opressoras ditaduras. No navio de retorno os passageiros já não eram os turistas da ida, mas sim pobres imigrantes rumo ao Brasil e Argentina.

Assim findou a aventura universitária numa Europa nada igual à atual, que, graças à União Europeia, a qualidade de vida não tem grande diferença entre os povos dos diferentes países, e que convivem com moeda única. Afora as muitas alegrias, a constatação séria foi a de que treze anos após o armistício o resíduo da destruição ainda não tinha sido de todo removido, e as consequências da guerra ainda eram sentidas. Por fim, para não terminar com tristeza, os que tinham prova pendente no Brasil lograram aprovação.

ANTONIO FERNANDES PANIZZA é arquiteto e ex-secretário de Planejamento Urbano de Jundiaí.


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